segunda-feira, 26 de março de 2012

A GARÇA E O DILÚVIO


Divulgação/TJRS
Por Afif Jorge Simões Neto,
magistrado em Porto Alegre-RS
Fonte http://www.espacovital.com.br/

O que pode querer da vida aquela garça tão branca no meio do arroio tão imundo? Pára, olha para um lado, bate as asas para outro, dá uma passada rente ao sumo do pequeno caudal, interrompe o voo e volta ao mirante sombreado por um salso-chorão, limpando o negrume do bico nas penas, a cada retorno de revoada.

Um resto de bando navega baixo e arrogante, seguindo o canal da sanga rumo ao Guaíba, arrancando folhas da grimpa do jacarandá lindeiro ao seu posto de observação.

Ela bem que poderia seguir a parentalha, estar longe do Dilúvio de águas podres, enfeitadas por garrafas de plástico e pneus velhos. Ali não tem mais peixe ou qualquer outra espécie de alimento que lhe reduza a fome. Embaixo daquele líquido gosmento ninguém mais respira, ninguém mais pulsa.

Ainda assim, com toda a liberdade dada por Deus em forma de pluma, prefere ficar pela volta, caminhar paciente, olhar plácido, buscando sabe-se lá quais intentos.

Pois desse jeito me sinto nesta cidade enorme e de alma tão perdida. Procuro-me com uma frequência cada vez mais intensa, mas não consigo me localizar no mapa abstrato de um povo disforme e atônito. Por dentro, uma tentativa de fuga, um apelo de menino que perdeu os seus brinquedos levados pela enchente. Pelo lado de fora, uma aparência resignada, um grito tampado.

Mas pouca importância se me dá de tal desassossego. Um dia, seguindo o apito do velho trem fumador de palheiro que se movimenta ao longe, batendo os tamancos, voltarei para a minha aldeia, para o meu açude envidraçado que, de tão azul, parece feito de céu.

E aí a garça do Arroio Dilúvio será minha convidada para mudar de pesqueiro. Com direito a escolher abrigo e canhada e a ter um ribeiro só para ela. Quando avistar algum taquiri garboso voejando rumo à Capital, dirá em versos, batendo com a asinha no peito: “Agora sou dona do ninho que eu mesma fiz. Passeia nos matos vizinhos mais um pássaro feliz”.

Afif@tj.rs.gov.br

quarta-feira, 21 de março de 2012

“NO CAFÉ CENTRAL”


Cesar Techio - Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

No café da Marisa, no centrinho, entre uma conversa e outra, conjecturas sobre o futuro, costuras informais típicas de tempo pré-eleitoral, repentinamente percebo o movimento das horas, o tempo escorregando pelos dedos das mãos, o fluxo mutável das estações, a fragrância de mais um Outono que chega e me assombra. O café central sempre ajuda a espantar a impressão de que vivemos engaiolados, no escritório, no trabalho, nos vínculos sociais, nas circunstâncias pessoais, institucionais, nos contratos emocionais. Um vislumbre momentâneo da efemeridade da vida e da urgência de vivê-la intensamente, a cada cafezinho, a cada olhar furtivo, discreto, me convence de que tudo o que a existência possui de melhor, deve ser vivido. Todos os prazeres, todas as flores, todos os vinhos, todo o calor do corpo, sem nenhum conflito, nenhuma culpa, sem perda de tempo, sem medos e constrangimentos.

A dignidade de ser feliz tem vínculos com a liberdade de poder decidir o rumo da própria vida, a quantidade de açúcar no próprio café, sem necessidade de conselheiros, gurus, “amigos da onça”. Ser o líder dos próprios sentimentos, dos prazeres a serem vividos, da consciência da beleza das estrelas, da própria espiritualidade e do Criador, transforma uma ovelha, bobona e carente de quem a defenda, num leão. Mentalmente atrasadas, ovelhas sempre dependem de quem as oriente. Ajustam-se a quaisquer conselhos convenientemente preparados por aqueles que lhes querem tosquiar. E, pior de tudo: não tomam café. Nem vinho no começo do Outono, mesmo um Carménère do Vale do Colchagua acompanhado por um bom queijo e uma linda companhia.

Ovelhas não tem gosto próprio, são fofoqueiras e vivem de comparar. Possuem uma necessidade ímpar de diminuir, desprezar, falar mal dos outros, de comparar. Comparam o tempo todo. Quando veem alguém mais bonito, se acham feias. Quando encontram alguém de bem com a vida, se acham infelizes. Quando se deparam com alguém mais alto, se acham baixas. Ao verem alguém bem vestido, se acham maltrapilhas. E por isso criticam, “metem o pau” sem qualquer fundamento para tentar destruir. É a psicologia do incendiário: “O sujeito é infeliz e mete fogo no prédio para ver os outros também infelizes.” Recheado por estes pensamentos (aqui transformados em crônica, ao vivo e em cores, à mesinha do café) perscruto o vai e vem das pessoas na rua central da cidade e, observo ao amigo que me acompanha, que até mesmo uma ação trivial, comum, como a nossa, a de tomarmos um cafezinho enquanto escrevo esta crônica, conquanto feito com amor, pode estancar o tempo e nos envolver por um sentimento de satisfação, plenitude e contentamento.

Pensamento da semana: “O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” Fernando Pessoa.

quarta-feira, 7 de março de 2012

POR PURO PRAZER



Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com.br


Perguntei ao coração, se aqui poderia deixar fluir as emoções mais secretas, aquelas recônditas, ocultas, encobertas e que navegam no dorso de músicas que falam de amor. Escreva, balbuciou. Quero amar cada toque do teclado, cada fio dos sentimentos que desafiam o tempo dos seus cabelos de meia idade. Mas, confesse o que você sentiu ao encontrar esta doce ilusão que tem o nome de mulher. O coração fala como se fosse possível colocar no papel a emoção de perscrutar o brilho dos olhos, dos cabelos soltos, da pele macia, do sorriso terno de uma lembrança estática, de outro coração, dono de outras músicas e emoções. Mas, fecho os olhos, carregado pela letra da música que me assombra e “eu posso sonhar com maneiras de te deixar ocupada. Posso trancá-la, nós guardaremos isso como segredo. Obedeço a sua sentença na minha cabeça. Hoje à noite eu sonharei com maneiras de deixá-la ocupada. Então eu posso trancá-la, nós guardaremos isso como segredo. Tão certo é meu hoje à noite, amor, quando eu fechar meus olhos” (I Close My Eyes. Shivaree).

Então, divertiu-se a mente, sempre racional, pretensamente lógica em cada linha e entrelinha destas colunas: O que vão dizer os leitores, os que esperam, a cada semana o desfile ácido, cítrico, crítico, dos ímpetos que escrevem a quatro mãos, como voce mesmo disse alhures? A hora é da política local, das uniões e desuniões, do raciocínio lógico, conceitos, frases, elocubrações (as vezes edílicas outras etílicas). Entretanto, se racionalmente mantenho o foco quando escrevo, com o coração me apaixono, festejo, celebro voô em rumo incerto envolvido pelos pensamentos lúdicos de quem sonha amar e ser amado. Também me fascinam os desfiles estéticos, intrigantes matizes de vestidos alinhados, colados, o perfume que atiça o libido, a química intensa do desejo mais próximo do corpo e dos lábios. Esse é o show secreto, pueril, com sabor de vinho carmenere e de viver o impensável.

E, desta forma, num mundo onde o amor tem a cor das convenções, das relações sociais, dos papéis acertados, dos deveres a cumprir; no qual um toma o outro como certo e garantido, pelo menos com o coração somos fluídos, renovados, mais amados, mais amantes. Felicidade tem a ver com fragrância das próprias realizações, com as quais podemos fazer muitas coisas que não sejam de natureza econômica, política, jurídica, social, fruto do desejo dos outros e não dos nossos, apenas por puro prazer. Alegrar-se, maravilhar-se com as coisas mais simples, brincar, estar disponível para infantilidades com a pureza de uma criança e, ao voltar, assumir com serenidade as obrigações, é sinônimo de equilíbrio, maturidade e felicidade. Enfim, convenhamos, é preciso viver. E viver, meus amigos e amigas, é amar, dançar, ousar o desconhecido, desafiar as mudanças, necessárias, imprescindíveis e... urgentes.

Pensamento da semana: “Luto pela magistratura séria, que não pode ser confundida nem misturada com meia dúzia de vagabundos infiltrados”. Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça. Revista Veja edição 2.259, circulando hoje.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

“ABERTO CONCURSO PÚBLICO PARA PREFEITO E VEREADOR”

Cesar Techio - Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Por quanto tempo uma propaganda político-ideológica consegue alienar uma pessoa? Por quantos anos um político incompetente e corrupto consegue impor seu discurso e convencer os eleitores a votarem nele? O império do senso comum, no qual as propostas de gestão pública aparecem soltas, superficiais, imprecisas, incoerentes, fragmentadas e bem por isso, confusas e aptas a enganar, pode durar todo o tempo em que os eleitores estiverem dispostos a serem iludidos e dominados. As circunstâncias que favorecem a eleição destas figuras, muito têm a ver com o grau de alienação e desinteresse dos eleitores em conhecerem a fundo os carismáticos candidatos que lhes dão tapinhas nas costas, prometem de tudo e pedem o voto. Embora qualquer um possa ser candidato, bastando saber ler e escrever (uma imperdoável falha do nosso sistema democrático) é fundamental que os eleitores considerem, na hora de votar, a experiência de vida e o preparo intelectual dos candidatos. Um bom currículo acadêmico, uma faculdade, um mestrado e até um doutorado podem fazer a diferença.

Para qualquer função, atualmente, se exige concurso, uma bateria de provas que ateste que o candidato ao serviço seja apto. Neste ano de 2012, estão abertos concursos para o IBGE, Polícia Federal, PRF, Receita Federal, TRT, Tribunais de Justiça, Ministério Público, Banco do Brasil, sendo que para o INSS as provas foram realizadas no último domingo. Concurso no Ministério da Fazenda, Superior Tribunal de Justiça, Liquigás Petrobrás, Senado Federal, Petrobrás, Banco Central, Caixa Econômica federal, Correios, Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Saúde, entre outros, ou estão com as inscrições abertas, ou aguardam autorização para publicação de editais.

Para a habilitação à candidatura a vereador, prefeito, deputado, senador, presidente da república, com mais razão também deveria haver um rígido concurso público. Só poderia concorrer quem fosse considerado apto sob o ponto de vista acadêmico, em currículo que colocasse em relevo inquestionável capacidade intelectiva para entender as atribuições do cargo. É preciso se questionar. Como eleger um idiota ou um analfabeto funcional a vereador, considerando a responsabilidade do cargo, como fiscalizador do Poder Executivo e fonte de leis? Ou não é necessário um nível mínimo de formação acadêmica, cultural, social e de entendimento para o exercício da democracia? Enquanto a lei eleitoral permanece deste jeito, cabe aos eleitores aplicar “concurso público” nos candidatos, escolhendo somente os bem preparados, fulminando do pleito também os analfabetos funcionais, aqueles candidatos que, embora dominem as habilidades básicas do ler e do escrever, não são capazes de utilizar a escrita na leitura e na produção de textos na vida cotidiana ou na escola, para satisfazer às exigências do aprendizado. Qualquer concurso para gari é mais difícil do que o aplicado a candidatos a vereador, pelo que, lembrem-se, eleitores, que é uma incongruência que toda a sociedade se submeta a concursos públicos para toda e qualquer função pública enquanto, irresponsavelmente elege aventureiros para cargos eletivos, como para vereador e prefeito.

Pensamento da semana: “Político que só militou na política e vira rico de uma hora para outra é ladrão” Senador Mário Couto (PSDB-PA) Revista Veja, edição 2256

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

“Jesus histórico: Chicote neles”

Cesar Techio - Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Iniciei, hoje, a leitura de “Jesus Aproximação Histórica”, um livro de José Antonio Pagola, Editora Vozes, 650 páginas. A abordagem do “Jesus histórico” não pode ser confundida com um estudo sobre o “Cristo da fé” no qual nós cristãos cremos, já alerta o autor na introdução. Além do mais, o método de estudo tem base “histórico-crítica”, com critérios científicos e, portanto, isento de pressupostos filosóficos e devaneios de “obras de ficção, escritas com delirante fantasia, que prometem revelar-nos por fim o Jesus real e seus ensinamentos secretos, e não são senão fraude de impostores que só buscam assegurar-se de polpudos negócios” (pág.12). Então, finalmente, encontrei uma bibliografia que me interessa, pois de há muito me cansei dos fingidores que utilizam a religião como um comércio, um meio de vida. Não sei o que me aguarda nas próximas páginas, mas a proposta de Pagola me foi abonada e recomendada por um amigo, depois que expliquei a ele que estava farto de constatar que, enquanto para Jesus religião é vida, para muitos líderes religiosos é apenas “meio de vida”. Eles fazem tanto estardalhaço e recolhem tanto dinheiro, que, se Jesus histórico aparecesse no meio deles e do povo entorpecido, seria impossível reconhecê-lo. Reconhecer Jesus implica em capacidade de se relacionar com ele; implica em possuir um coração que permita se tornar um pouco daquilo que ele é para a história. Só podemos reconhecer aquilo que já se encontra dentro de nós mesmos. E isso tem a ver com simplicidade e não com erudição e dinheiro. Parece piada, mas existe tanto envolvimento com idéias e pregações, que se o homem Jesus aparece, com toda a sua dimensão humana e histórica, os que utilizam dele como marketing para “faturar”, tentariam matá-lo.

Mergulhando algumas páginas a frente, percebo que Jesus realmente não foi assassinado por bandidos, homens maus, mas, por rabinos muito respeitáveis, pessoas religiosas (vejam só!) que se sentiram ameaçadas. Contextualizando Jesus, com a ajuda da arqueologia, antropologia cultural, sociologia das sociedades agrárias da bacia mediterrânea, da economia, etc., vemos que ele nasceu na Galiléia, numa aldeia insignificante, dentro da cultura judaica com todas suas implicações. Seu nome, Yeshua (“Javé salva”), dado por seu pai no dia de sua circuncisão era super comum, quase todo mundo assim se chamava de forma que foi preciso lhe identificar como Yeshua bar Yosef, “Jesus filho de José”.

Pois bem, sem qualquer erudição, sem citar mestres, o filho de José começou a “falar do que o coração estava cheio” (Mateus 12,34: “a boca fala do que o coração transborda”) e passou a “dar nos dedos” dos escribas, fariseus e rabinos do seu próprio povo judeu. Ele não era de “passar a mão na cabeça” dos vagabundos e exploradores de seu tempo. Segundo João, “profundamente irado, ele toma um chicote, expulsa os vendedores e animais, derruba as moedas e vira as mesas. Acusou que estavam fazendo da casa do Pai casa de negócios. Com Jesus os supostos religiosos, inclusive de nosso tempo, estão sempre em perigo, porque toda a vida deles não fecha com a vida do Jesus histórico. Assim, se Jesus está certo, a maioria dos líderes religiosos estão errados. Se Jesus está certo, então, muitas igrejas estão erradas. E devem fechar as portas, antes que ele entre nelas e estrale o chicote.

Pensamento da semana: “Não nos percamos”.


RESPOSTA A LEITOR:

Amado.

Obrigado pela sua mensagem.

Reli minha cronica, “Jesus histórico: Chicote neles”
http://cesartechio.blogspot.com/) publicada em vários jornais do país, inclusive no O Jornal, de Concórdia - SC.

Faça o mesmo. Leia mais uma vez.

Não vejo nela qualquer orientação de ordem doutrinária distanciada da coerência de Jesus Cristo.

Quem eventualmente se sente atingido, certamente se coloca na mesma condição dos rabinos, vendilhões do Templo, de que Yeshua bar Yosef falava.

Quem vive diferente (dos vendilhões) deve APLAUDIR O TEXTO.

Afinal, é preciso viver o que se prega. Não é?

Creio, nesta ordem, que o artigo deve fortalecer as igrejas perfiladas com o agir de Jesus. Então, lembro a ORDEM que Ele deu, em Lucas 10,25-28:

"Levantando-se um doutor da lei, experimentou-o, dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
Respondeu-lhe Jesus: Que é o que está escrito na Lei? como lês tu?
Respondeu ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de toda a tua força e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
Replicou-lhe Jesus:Respondeste bem; faz isso, e viverás."

Então, estimado, aos vendilhões do Templo afiados na palavra, mas hipócritas com relacão ao que pregam, aos que da religião fazem meio de vida, tenho a dizer:

FAZ ISSO, E VIVERÁS !


As Igrejas que se revoltam com Jesus Histórico e sua vigorosa mensagem, é porque não fazem o que Ele pregou e, por isso, no meu entender devem fechar as portas. Com certa urgência.

As que apoiam, pregam e vivem com humildade e coerência, devem se expandir, crescer, evangelizar, em nome de Jesus !
Abraço fraterno.

Cesar Techio

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

LEONARDO BOFF A DIONÍSIO RICIERI MORÁS

























Cesar Techio - Economista – Advogado

cesartechio@gmail.com

Em aulas sucintas, porém de incalculável repercussão futura, enquanto instrumento de conhecimento apto ao discernimento da história, uma enxurrada de informações veio em tempo oportuno bater à minha porta. É que, “como aprendemos, também desaprendemos com o passar dos anos. Então é necessário voltar para a sala de aula”. Foi o que palestrou Dionísio Ricieri Morás, no alto de seus 65 anos de infatigável vida franciscana e de um extenso currículo que inclui mestrado e vivência em meio ao povo sofrido. Desfilaram, durante as palestras, conceitos doutrinários voltados à compreensão do homem e do mundo (visão cósmica e social). Enfoque sobre as civilizações agrícola, moderna, pós moderna e análise de fatos dentro do contexto social, cultural e intelectivo do próprio tempo histórico vivido. “Não podemos julgar a história com os conceitos de hoje.” Enquanto na antiga civilização a visão de mundo era estática, organicista, baseada no dualismo antropológico, na sacralização da natureza, no teocentrismo, no cosmocentrismo, na ética da Ordem, na submissão ao poder constituído, hoje, na atual civilização, vemos a história de forma sintética e sistêmica, carregamos uma concepção holística e global do mundo. Os conflitos da Igreja, com ênfase à oficialidade eclesiástica, passando pelos principais Concílios Ecumênicos, culminando com o período do Vaticano I e II; a história da Igreja no Brasil; a Inquisição; o sistema de Evangelização; movimentos missionários e seus ciclos; a igreja no regime militar; a nova visão de Medellin a Puebla; o papel da CNBB, entre outros, se constituíram em temas “quentes”, críticos e construtivos.

A nova moral, abordando enfoques como, humanismo, política, legislação, judiciário, casuísmos, libertação, violência, normativismo, consciência, educação, valores e práticas, é um convite para que “olhemos de frente este momento da história que nos é dado viver”. Chave de ouro, a conclusão do curso de teologia, de que a Moral Social ou Renovada: “tenta recuperar certos valores que a civilização tecnológica e a modernidade personalista, matou ou mascarou. A moral social considera o desenvolvimento, os avanços tecnológicos e científicos em vista do desenvolvimento integral do ser humano enquanto comunitário.” Sem descurar do pensar dialético, do “pensar cientificamente” e das demais ciências sociais para a análise da realidade visando descobrir novas saídas para as crises, Dionísio Ricieri Morás critica a substituição da vida pela imagem (foto, TV...) porque, segundo ele, não há mais convívio, apenas observação. E fulmina o desprezo pela alteridade (não se aceita o diferente); a corrupção política, econômica e judicial; o utilitarismo (se me serve aceito...); o assistencialismo em vez da libertação; a perda do senso crítico; a deteriorização das relações humanas e o embrutecimento do espírito.

A compreensão de Dionísio Ricieri Morás se harmoniza e se alinha com a de Leonardo Boff de que “O mal não está para ser compreendido, mas para ser combatido” (O despertar da Águia). Quando olho para a simplicidade, inteligência, sabedoria e trajetória de vida de Dionísio Ricieri Morás, me ocorre a figura de Francisco de Assis amansando o lobo e abraçando os leprosos.

Pensamento da semana: “Quando a estrada acaba não é o fim. Tem toda a distância percorrida que deve ser considerada. Você pode voltar”. Dionísio Ricieri Morás.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Bombeiros Voluntários: Uma solução jurídica.

Cesar Techio - Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Sob o ponto de vista do direito administrativo e, mesmo da constituição estadual e federal, os serviços de bombeiros, assim como os de polícia, higiene, iluminação pública, são considerados privativos do Poder Público, no sentido de que só a Administração deve prestá-los, sem delegação a terceiros, compulsórias em relação aos administradores. São os serviços “próprios” e assim é por reconhecer sua essencialidade e necessidade para a sobrevivência do grupo social e do próprio Estado. São chamados de serviços “uti universi” porque são prestados à coletividade como um todo na medida em que satisfazem indiscriminadamente a população de forma que são mantidos por imposto e não por taxa. Não se tratando de serviço “impróprio”, portanto, os serviços prestados pelos Bombeiros Voluntários não podem ocorrer mediante delegação do Estado, pelo que, esta solução que me havia ocorrido para solucionar o nosso caso, não se afigura viável. Os promotores aqui de Concórdia, lastreados nestes fundamentos, acusam (indiretamente) a OAB e outros setores locais de incitarem a população contra a chegada dos Bombeiros Militares já que a “realidade normativa vigente impõe uma reestruturação da atividade.”

Durante 32 anos, nossa sociedade, abandonada pelo Estado relapso, se virou o quanto pode diante dos desastres e acidentes e, exemplo para o Brasil, estruturou o melhor Corpo de Bombeiros do país. Uma turma de 64 alunos que iriam começar o curso de Bombeiro Mirim (mais um exemplo para o Brasil) e ainda a escola para a formação de novos bombeiros, vai tudo para as “cucuias”; um tabefe na cara da esforçada sociedade concordiense. Mas, o sistema positivista é assim mesmo: “Está na lei, cumpra-se”. Trata-se, em suma, de uma questão de segurança jurídica, suporte sagrado do nosso sistema democrático de direito. E, diante do entender do Desembargador Pedro Manoel Abreu de que não é crível o êxito da Proposta de Emenda Constitucional n. 0011/2011 e ainda, frente o absurdo de se acabar com a eficiente estrutura dos Bombeiros Voluntários de Concórdia, é preciso encontrar soluções urgentes.

Nesta situação, uma proposta que não se mostraria inconstitucional perante o monopólio da jurisdição do Estado em questões de segurança pública, seria o da parceria entre o Estado de Santa Catarina e o nosso Corpo de Bombeiros Voluntários. Esta possibilidade jurídica tem dois fundamentos. O primeiro se constata no próprio artigo 144 da Constituição Federal que afirma que segurança pública é responsabilidade de todos: “Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos [...]”. O segundo, no fato de que a Associação dos Bombeiros Voluntários não visa lucro. Não se trataria, então, de delegação ou concessão de serviços públicos a empresas privadas, mas, tão somente, de uma parceria com uma associação sem fins lucrativos. Tudo isso baseado no fato de que, diante do dispositivo constitucional, artigo 144 supra nominado, a responsabilidade entre Estado e sociedade civil é, notoriamente, solidária. Não se trata, no caso, de uma proposta de retirar do Estado sua prerrogativa constitucional quanto ao comando dos serviços inerentes aos bombeiros, mas sim reforçar a presença de parceiro apto para cooperar num segmento deficitário. Por ora, é preciso substituir as “taxas”, cortadas por força de decisão judicial, por doações da comunidade em contas de luz ou carnês e, no caso de parceria, por repasses do Estado via convênio. Que tal?

Pensamento da semana:
Diante da inércia do Estado e em vias de perigo com o fechamento do Corpo de Bombeiros Voluntários, que não se espere que a sociedade concordiense seja passiva. Parabéns ao Dr. Paulo Milleo, digno presidente da OAB local, à CDL, à ACIC e à todas as forças vivas de nossa combativa sociedade.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

”Bombeiros voluntários: legalismo e comoção pública”

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Decisão do insigne Desembargador Pedro Manoel Abreu, em liminar no portal da Ação Direta de Inconstitucionalidade, autos 2011.071581-3, que tramita no nosso Tribunal de Justiça, coloca em xeque a Lei Complementar n. 10/1990, do Município de Concórdia, que dispõe sobre a competência do Corpo de Bombeiros Voluntários de Concórdia. É que a lei municipal “adentra campo que lhe era constitucionalmente vedado, ao instituir taxas e estabelecer competência inerente às prerrogativas do Corpo de Bombeiros Militar, órgão integrante da Administração Estadual e que está diretamente subordinado ao Governador do Estado, nos termos do § 6.º do art. 144 da Constituição Federal e do art. 108, incisos I, II e III, da Constituição Estadual.” Com a devida vênia, diante dos fundamentos jurídicos de tal decisão, são plausíveis algumas considerações. Em primeiro, a constatação de que o Desembargador não desconhece ser de “inquestionável relevo social”, os serviços prestados pelos Bombeiros Voluntários, mas que, considerando a natureza jurídica da Ação, “não cabe discutir, em sede de controle concentrado, as questões fáticas que envolvem o problema, por mais sérios que se afigurem, como, por exemplo, a ausência de Corpo de Bombeiros Militar na cidade de Concórdia.” Além do mais, argumenta que se “deve observar as competências e limites estabelecidos nas Cartas Federal e Estadual, sob pena de colocar-se em risco a segurança jurídica.”

Todavia, me parece despropositado o legalismo com que se revestem certas decisões judiciais, em detrimento da justiça, da segurança nas relações sociais históricas e dos costumes, fonte primária do direito. A mesma força legalista (insisto) da referida decisão deveria se fazer presente na gestão pública estadual nos mais de 32 anos de ausência, descaso e omissão do Estado nas prestações dos serviços de socorro neste município. Os Bombeiros Voluntários de Concórdia, em 32 anos de trabalho heróico, se transformaram num patrimônio moral do município Nossas crianças, vendo neles uma referência de competência, seriedade e honestidade, auguram se tornar bombeiros voluntários quando crescerem. É disso que estamos tratando. A ordem dada pela decisão judicial é positivista: “estudo direcionado tão-só às regras”, “sem ingerência no domínio dos valores.” (Michel Miaille, Uma Introdução Crítica ao Direito, Ed. Moraes, Lisboa, 1976, p. 39).

Doutra banda, os equipamentos e toda a estrutura dos Bombeiros Voluntários são privados, doados pelo nosso povo diante da ausência do relapso Estado, o qual se queda inerte e inapto, visto que ainda não colocou à disposição de Concórdia os equipamentos, instalações e pessoas para prestar os serviços de prevenção de sinistros e catástrofes, de combate a incêndio, de busca e salvamento de pessoas e bens e atendimento pré-hospitalar. Aí a pergunta: como buscar socorro junto ao Corpo de Bombeiros Militares, mesmo sob pena de responsabilização administrativa, civil e criminal, se eles não possuem equipamentos para fazer frente às necessidades supra mencionadas? Sem saída, sob pena de omissão de socorro, atentado às clausulas pétreas da nossa Constituição, desprezo aos princípios formadores do direito e violação as regras de direito humanitário internacional, os Bombeiros Voluntários de Concórdia não podem deixar de prosseguir com sua missão.

Pensamentos da semana: 1 – “A lei sem justiça é uma zombaria, senão uma contradição. Denis Lloyd. 2 – Teu dever é lutar pelo direito. Mas, no dia que encontrares o direito em conflito com a justiça, luta pela justiça.” Couture. 3 – “Num conflito entre a legalidade e a justiça, eu tenho tranqüilidade em afirmar que a justiça deve prevalecer.” Dallari. 4 – Faça-se a justiça, apesar da lei. José M. R. Tesheiner.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Medo do diabo e da cadeia

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Cadeia ou inferno. Muitas pessoas vivem numa atmosfera de boa conduta e são boas porque sabem que se saírem da linha podem sofrer penalidades. Então, com medo da alegria do diabo, da polícia e da cadeia, abarrotada, quente como o inferno, vestem uma auréola de santidade. A “bondade” destas pessoas é amoldada no medo. A maioria age com princípios apresentados por mensageiros que afirmam ser superintendentes de Deus na terra, o que me faz pensar que, ou são mentirosos ou Deus ficou louco. Pela lógica, acredito que se trata de puro estelionato dos que querem dominar os outros pela religião. Estes são piores do que os políticos, porque dominam a vida dos incautos não só por fora, mas também por dentro, ideológica e espiritualmente. Comandam a consciência, o agir e os sonhos dos seus seguidores. A dominação é tamanha, que se alguém tenta sair do esquema e aproveitar a vida, vivê-la com totalidade e com base exclusivamente no amor, começa a se sentir culpado, pervertido e neurótico. E ai de quem pensa diferente. Em que pese nosso Estado brasileiro, de acordo com os artigos 5º, incisos VI e VIII, e 19, inciso I, da Constituição Federal caracterizar-se como laico, com liberdade religiosa, não é incomum, nas entrelinhas de pregações se ouvirem críticas contra espíritas, católicos, crentes, agnósticos, umbandistas e por aí afora. Cada “superintendente”, sedizente cristão, pretende o monopólio da verdade e da salvação, mesmo que a preço da dominação e reserva de mercado religioso.

O quanto nossa humanidade é sofredora e miserável, repleta de ódio, raiva, guerra, ciúme, fofoca, destruição, porque fundamentada no medo do diabo, do inferno e da cadeia, é só prestar atenção nas nossas atitudes externas versus pensamentos, com relação aos nossos filhos, esposa, esposo, vizinhos, amigos e demais pessoas. A subserviência ideológica ao medo do inferno, do diabo e da cadeia, é a maior desgraça na face da terra. Você já pensou em ser bom, simplesmente porque esta é a ordem natural das coisas? Ser correto, justo e amável, não por medo do diabo, do inferno e da cadeia, mas, apenas porque esta é a maneira normal de se viver? Este é o novo território que precisamos explorar neste novo ano. Sem mapas e diretrizes, porque somente os medrosos e covardes não conseguem viver sem que alguém lhes diga por onde ir e como viver. É imperativo descarregar todos os condicionamentos que recebemos, principalmente o medo do inferno, do diabo e da cadeia. Agiremos naturalmente, com amor, solidariedade e compaixão, não por exortação ou porque alguém nos disse para nos comportar assim, mas por pura descoberta e convicção pessoal. No começo pode ser difícil, mas com o tempo perceberemos que tudo o que fizermos estará e dará certo. É necessário sermos responsáveis por nós mesmos, livres e profundamente amorosos. A receita, segundo Agostinho de Hipona, é simples: “Ama e faz o que quiseres. Se calares calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

Pensamento da semana:
“Com exceção dos bebês e das crianças que tem poucas resistências, o Amor desenvolve mais quem ama do que quem é amado." - Saulo Fong

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

2012 , chegamos nele. E agora?

Cesar Techio ; Advogado/economista
cesartechio@gmail.com

Você leu minha crônica anterior. Emocionado, se propôs a mudar suas táticas e estratégias. Nem que fosse o jeito de andar ou o corte de cabelo. Mas o ano recém começou e esqueceu-se de tudo. É estranho como os projetos de vida fracassam. Fracassam nas próprias mãos dos que se propõem a mudar, porque depois do rápido reencontro consigo mesmo, passam a pensar de outras maneiras. Preguiça, indolência, medo, vergonha, inércia do abraço doentio com o jugo do passado, tudo justifica o mesmo andar, a mesma afeição a velha maneira de viver. Estas crônicas são publicadas em alguns jornais, pelo Brasil. Entre ouvidos ligados, alguns e-mails reverberam novas descobertas.

Lendo uma a uma, me dou conta que escrevo a quatro mãos, as que digitam e as que ditam minha consciência. As que digitam são aptas a mudar o futuro, mas inquietas e fracas. As que criam o texto são revolucionárias, rebeldes e ansiosas por um novo tempo. A ansiedade tem a ver com a pressa diante do tempo que se esgota, pois se não mudarmos agora, em pouco tempo toda a vida desaparecerá, a minha e a sua vida desaparecerá. Assim, a resposta a cada leitor que se detém nestas crônicas é de que não há mais tempo. Ou nos propomos a mudar e levar a sério esta proposta, ou desapareceremos. Estamos juntos nesta encrenca, neste planeta e neste tempo que se esgota. O ano novo já está nos trilhos. Se rebele, abandone a velha roupa, os antigos hábitos, crenças, ideologias, sem nunca olhar para trás. Você é muito mais do que a identidade e os limites que lhe impuseram; infinitamente superior ao titulo que a formação acadêmica lhe ofereceu e extraordinariamente maior que os empoeirados apegos.

Largue o osso. Não ignore este belo mundo. Curta os sentidos do seu corpo, o tesão, o gosto por um bom vinho, os afetos por outro ser humano, por uma bela mulher (ou vice e versa), mas também não ignore o espiritual, a intimidade com o Criador. Tanto o material como o espiritual fazem parte do mesmo jogo e do seu ser. Abandonar um e se fixar no outro é pura esquizofrenia, fanatismo, radicalismo. Não é natural. Não há como realizar uma nova humanidade fracionada, fixada só no material ou no espiritual. A rebelião contra a divisão entre matéria e espírito e a consciência de que não somos somente matéria ou só espírito faz parte da inteligência necessária para mudar a sua vida. O espírito não existe sem a matéria, tudo faz parte de uma única realidade. Ficar só no espírito e condenar a matéria debilita o corpo. Viver só na matéria oprime a alma. Então, para mudar sua vida você não precisa entrar em conflito, mas apenas em harmonia com a unicidade, como o equilíbrio que precisamos ter para viver em paz. Aceite, com alegria, o material e ao mesmo tempo festeje o espiritual. Aceite as diferenças, procure não se meter na vida alheia. Não se torne escravo da religião, muito menos um bobo materialista do mundo. Esteja no mundo com responsabilidade, mas também retire as teias das velhas manias, deixe o sol bronzear a pele e o ar fresco renovar a sua vida.

Pensamento da semana: “Se tu dix...”. Mensagem de um manezinho da ilha de Santa Catarina ao ler minha última crônica.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

“Conseguiremos ser felizes no ano novo?”

Cesar Techio - Economista – Advogado

cesartechio@gmail.com



“Feliz ano novo” é a frase mais ouvida na virada de ano. Desejamos aos familiares, amigos e conhecidos, que 2012 seja próspero, cheio de saúde e alegrias e, recebemos em contrapartida, felicitações e auguro para um “Feliz Ano Novo”. A proposta, na virada de ano, é exatamente a mesma do ano anterior. Vivemos uma vida repetitiva, de velhas rotinas, dentro de mecanismos antigos, sempre controlados pela mente adaptada aos costumes. Era assim com nossos avós, pais e assim será com nossos filhos. Apesar de todos os desejos por um “Feliz Ano Novo”, continuamos os mesmos, pensando da mesma forma, com os mesmos erros e equívocos. Caminhamos, neste ano que chega ao fim, dentro do ritmo e do padrão pré-estabelecido pelo modelo de formação imposto pelas gerações passadas. Se pararmos para refletir, por um instante, perceberemos que somos como uma máquina, um robô, funcional, hábil, capaz de resolver mil e um problemas, mas nada original, sincero, verdadeiramente humano e capaz de resolver os próprios problemas. A rotina, a repetição, o padrão pré-estabelecido não deixará, jamais, que o desejo por um “Feliz Ano Novo”, se torne realidade. O problema é que deixamos que o passado, morto, permaneça sem piedade, controlando as nossas vidas.

Não é hora de mudar? Precisamos fazer algo novo, nem que sejam pequenas mudanças no jeito como temos vivido. Comece, nesta virada de ano desejando sincera e ardentemente “Feliz Ano Novo” para você mesmo. Apare a barba, tire o bigode, mude o corte de cabelo, as roupas, o andar, o sorriso e o modo de pensar. Ajude sua mulher a lavar a louça, abrace os filhos, mesmo crescidos, pare de achar defeitos em tudo e em todos. Dance, pule, crie um pouco de vergonha em ser tão estúpido. Os velhos hábitos entrarão em choque e, aos poucos, em colapso, perderão o controle sobre sua vida. Mude o estilo, seja menos ambicioso, tenso e burro. Deixe de querer controlar os outros. Elimine as velhas táticas. Ouça o coração e torne o desejo por um “Feliz Ano Novo” uma realidade. Caso contrário, não cumprimente ninguém neste final de ano. Desejar “Feliz Ano Novo” sem uma decisão firme para mudar a essência da sua vida, é hipocrisia. Assim, evite desejar feliz ano novo para si e para os outros, se não estiver sincera, humilde e corajosamente com vontade de interromper a sua velha maneira de viver e de se comportar. Buscar soluções drásticas a nível pessoal, mergulhando no desespero, angústia, decepção, com menosprezo por si mesmo, é pura bobagem. Se dê, mais uma vez, a oportunidade de ser feliz, em 2012. Mude o padrão, o modelo e viva o seu sonho. Enfim, papai, mamãe, filho, filha, sobrinho, família, amigo: vamos mudar em 2012?

Pensamento da semana: “Chegaram ao fim os dias de gastar o dinheiro que não temos, comprando coisas de que não precisamos, para impressionar pessoas que não conhecemos.” Tim Jackson, professor da Universidade de Surrey, Veja, edição 2249, pág. 168, de 28/12/2011.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL NA ESTREBARIA

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com


O nobre casal Maria e José, por ocasião do nascimento de seu filho, em nada difere dos casais pobres, sofridos e hipossuficientes dos dias de hoje. Ela grávida, viajaram de Nazaré, na Galiléia, para Belém, na Judéia, para atender um decreto do Imperador Romano Cesar Augusto, que determinava que todos voltassem à terra natal para se registrar devido a um novo recenseamento. Chegando à cidade, todas as hospedarias estavam lotadas. Ela prestes a parir, procuraram um local qualquer, devido à extrema urgência. Encontraram uma estrebaria, cocheira ou estábulo e se ajeitaram como puderam em meio ao mau cheiro de excrementos dos animais. Tratava-se de um jovem e desesperado casal tentando encontrar um lugar descente para receber o neném, adentrando num lugar fétido, sem iluminação ou qualquer estrutura sanitária e higiênica. Maria obrigou-se a deitar em meio a palhas sujas e animais assustados. Longe de qualquer estrutura familiar, sem qualquer apoio humano ou logístico, sem qualquer estrutura de saúde, ela concebeu o bebê. Estas foram as verdadeiras e chocantes condições do quadro real que emoldurou o nascimento de Jesus, comemorado no dia 25 de dezembro. Infelizmente, o verdadeiro natal foi diferente dos sonhos de natais que povoam a imaginação consumista dos nossos tempos.

A festa celestial que acompanhou o nascimento de Jesus, com anjos avisando pastores que correram para vê-lo, também em nada se assemelha a realidade histórica da humanidade. Crianças, quando não assassinadas ainda no seio da mãe, nascem em meio a uma realidade sócia, política e econômica atroz. Só na Coréia do Norte, cuja morte do louco ditador Kim Jong-il se verificou no dia 17 de dezembro, crianças nascem e passam a vida toda em campos de concentração nos quais mais de 200 mil pessoas, seus pais e mães, se encontram encarcerados por motivos puramente políticos. Em época de paz, como a que vivemos no Brasil, a miséria devastadora humilha incontáveis crianças que nascem na pobreza, nas estrebarias da vida, muitas vezes bem na frente do nosso nariz egoísta, dos nossos olhos egocêntricos e da nossa riqueza ostensiva. Nesta perspectiva natalícia, miserável e criminosa, de dor e tristeza encravada no nascimento e no destino de milhões de crianças, o quadro poético do natal deve ceder a fortes ações de filantropias e a um melhor amadurecimento do conceito de responsabilidade social. Comece, neste natal, levando seus filhos para visitar outras crianças desprovidas. Leve presentes natalinos e se associe a eles durante o ano de 2012 e nos anos que se seguirem. Ajude em tudo o que a sua família puder (pré-natal, material escolar, uniformes, ranchos mensais, matrículas e mensalidades em cursos diversos, etc.). Não pratique um ato isolado. Adote uma sistemática integrada, planejada e estratégica para colaborar permanentemente com crianças necessitadas a fim de que elas viabilizem o seu próprio futuro. Crie uma cultura de solidariedade. Só assim o Natal existencial vai valer a pena. E considere que, “ações esporádicas, doações e outros gestos de caridade não vinculados à uma estratégia permanente não podem ser considerados como atuação de responsabilidade social. Grande parte das pessoas e empresas que acreditam estar sendo socialmente responsável pratica, na realidade, caridade e paternalismo.” (Elenice Roginski Santos)

Pensamento da semana: Em 2012 assuma como verdadeiro projeto de vida, ajudar a reavivar a ABAC, instituição cristã verdadeiramente voltada à responsabilidade social. Feliz Natal.



Techio, Paz e bem!!!

Esta mensagem que recebi, achei interessante te enviar, ela mostra que o Natal não é de Jesus que ocorreu a mais de 2.000 anos, mas o nosso renascimento com o natal de Jesus. Gostei da frase no prédio da rodoviária onde está escrito:

"Neste natal, não se esqueças do aniversariante."


Eu sei que você vai se lembrar e o artigo Natal na estrebaria prova isso.
Por isso um feliz e Santo Natal e um novo ano cheio de realizações.

Frei Luis Toigo
freitoigo@hotmail.com

domingo, 18 de dezembro de 2011

PUBLICAÇÕES NATALINAS

Revista O Corujão




Revista Focus



Revista Magazine 21

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

”FOFOQUEIROS”

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com


Pessoas mortas controlam as vivas. A afirmação tem sentido. Desde a infância, somos condicionados pelos nossos pais a sermos o que eles foram. Eles por sua vez foram condicionados pelos pais deles, nossos avôs e estes pelos pais deles, nossos bisavôs. Após gerações, continuamos errados, cometendo os mesmos erros, ligados na tradição (palavra de radical grego que significa trair). Assim, traímos a evolução e continuamos controlados pelos mortos, ligados a eles genética, emocional e ideologicamente. E, como autômatos vamos controlando nossos filhos e estes controlarão os deles, sempre repetindo os mesmos erros, as mesmas doenças, as mesmas crenças, as mesmas burrices dos que morreram. A revista Veja, edição 2247, numero 50, pág. 73, que circulou no dia 14/12/2011, traz uma reportagem sob o título: “Só faltava esta: xiitas do Afeganistão são massacrados em feriado religioso”. A encrenca tem a ver com uma disputa que se estende há séculos sobre quem são os legítimos herdeiros do fundador da religião muçulmana. Mais adiante outra reportagem, “Guerra Perdida”, estampa o conflito conhecido como Guerra do Vietnã, na qual milhares de jovens americanos e vietnamitas perderam a vida. E assim caminha a humanidade. Desde os grandes massacres promovidos por ditadores, regimes totalitários ou em nome da religião ou ainda da política, até as encrenquinhas domésticas e fofocas entre vizinhos. E sempre foi assim. Ficamos transferindo hábitos, ódios, egoísmos, de uma geração para a outra. Por isso digo que pessoas que morreram há séculos continuam controlando os vivos.

Mas, hoje, temos grandes oportunidades para mudar o eixo desta tradição (traição). É preciso romper este círculo vicioso, a começar pelos relacionamentos mais simples. Lançar um olhar de amor, consideração e respeito pelos outros, eis o primeiro segredo. O segundo é cuidarmos da nossa própria vida. Lavar a boca toda a vez que nos dá aquela coceirinha para fofocar da vida alheia e deixar os outros viverem em paz. Emendar notícias é especialidade dos fofoqueiros. Entretanto, nem tudo o que nos falam ocorreu exatamente como nos falam. A religião, cor da pele, opção sexual e política, sob o ponto de vista dos princípios e fundamentos da nossa constituição, dizem respeito a intimidade e privacidade de cada um. Cada qual torce pelo time de sua preferência e precisamos frutificar a tolerância com relação a isso.

Enfim, precisamos regressar a infância, consertarmos os erros que nos inibem de viver em paz e fraternalmente começar tudo de novo. Primeiro é necessário rompermos o cordão umbilical com a maneira errada de viver daqueles que já se foram. É fundamental cortar as velhas raízes e liberar na nossa cabeça e coração, uma nova consciência, um novo renascer. Uma vez destruído o controle das gerações passadas, com uma nova visão será possível curtir essa vida com muito mais alegria e saúde. Neste ano que chega ao fim, vamos jogar no lixo os preconceitos, a rabugice, o mau humor, as fofocas e largar de vez “do pé” das pessoas. Vamos amar de verdade, a começar pela nossa família, nossos filhos, consortes, parentes e amigos. Depois as pessoas que são diferentes, que pensam e que vivem de forma diferente do que nós. Tenhamos coragem para fazer isso. E feliz ano novo!

Pensamento da semana: “Rogério Pacheco, um grande defensor dos interesses do povo e de um Plano Diretor mais inteligente. Em meio a surdos e mudos, faz história na oposição e merece nosso respeito.”

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

QUANDO O CASAMENTO ACABA

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com



Amar a esposa e a amante, ou simultaneamente várias mulheres, mantendo relacionamentos duplos, triplos, quádruplos, a meu ver, apenas mostra o quanto podemos ser divididos. Uma parte ama a esposa e a outra a amante. Uma personalidade é a do pai de família e a outra a do garanhão, a do super macho. Um agir assim ao longo dos anos, somente mostra uma dupla personalidade. Se sair bem com a esposa e correr para a amante e com ela também se sair bem e, esconder da esposa e da outra, a verdadeira personalidade, num vai e vem eterno, num esconde-esconde de mentiras, com imagens diferentes, uma para a amante, outra para a esposa, somente mostra o quanto somos fragmentados. O problema é que, com o passar do tempo, um homem que age assim acaba por não mais se reconhecer. Chega um momento que ele não sabe mais quem ele é realmente. Eis aí, o conflito íntimo, pessoal, que se transforma numa tremenda confusão, mesmo porque, o amor, não tem nada a ver com duplicidade, com sexo, mas com companheirismo e, principalmente com integração. O amor verdadeiro por uma mulher faz com que o homem fique integrado com ela, e com ela se torne uma pessoa só.

Um homem que possui várias mulheres acaba perdendo a identidade e no final, neurótico, precisa de ajuda psiquiátrica ou de pessoas estranhas, o que me parece ridículo, pois advogados, juízes e promotores, não foram necessários para iniciar o relacionamento do casal, mas são imprescindíveis para ajudar a terminá-lo sem maiores traumas e seqüelas. A ausência de sanidade é absoluta, pois se duas pessoas foram capazes de iniciar um relacionamento, também deveriam ser aptas a, no momento da separação, agradecer uma a outra pelo amor, que foi maravilhoso, mas que chegou ao fim.

Em muitas separações, casais argumentam que a amante ou o amante fazem sexo com maior desenvoltura. Mas, tento explicar, quando me procuram, que o problema não é o sexo, a não ser que a mulher ou o homem sejam exageradamente sensuais. Porque, no fundo, homens e mulheres não querem sexo, querem, na verdade, amor, lealdade, parceria nos projetos de vida, diálogo, respeito, confiança e cumplicidade. A vida a dois exige partilha. Compartilhar e confiar, eis o segredo de um bom relacionamento. Assim também é com todos os relacionamentos em sociedade. É preciso confiar. É claro que existem “amigos da onça” que, devido a um caráter infernal, muitas vezes quase imperceptível, são capazes de lhe trair. Mas, trair é um problema deles. O importante é não se deixar contaminar, não tornar o problema deles em seu. O que importa, é que a única possibilidade de um bom relacionamento é o respeito. O respeito é a ponte. Essa ponte pode ser quebrada quando a personalidade se duplica. Mas, não é porque uma mulher, um homem ou um amigo o traiu que toda a humanidade é trapaceira e fará o mesmo. Muitas vezes tenho constatado os super-copuladores, já doentes, velhos e acamados, sendo bem atendidos pelas virtuosas esposas ou até pelas ex-esposas (vejam só), porque, as amantes, essas não botam a mão para limpar as partes íntimas deles. Enfim, se quiser viver feliz, fique focado e não brinque com o amor, pois ele é a mais profunda base do seu ser.

Pensamento da semana: “Muitos bebês que nascem nos campos de prisioneiros ficam lá pelo resto da vida”. Do relatório da ANISTIA INTERNACIONAL, sobre a Coreia do Norte por maus-tratos a seus 200.000 presos políticos. Veja, edição 2.246, pág. 73, de 07/11/2011.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

AÇÃO DE GRAÇAS: ALUNOS DO OLAVO





Cesar Techio
Economista – Advogado
techio@concordia.psi.br

"A Escola Olavo participa do Dia de Ação de Graças! Valorizando: A vida, a solidariedade, a caridade, a humildade, o amor. Você é importante!" Em plena Rua Dr. Maruri, no dia 23, uma faixa imensa, com os dizeres acima, chamava a atenção dos motoristas e transeuntes, para o primeiro Dia de Ação de Graças a ser comemorado em Concórdia. No burbirinho do trânsito pesado, da vida corrida e cibernética, os alunos e alunas do Colégio Olavo Secco Rigon pararam o trânsito da cidade para entregar frases incrustradas em papel imantado. Recebi, no carro, a seguinte mensagem: "Através da reflexão conseguimos fazer de nós mesmos nossos próprios psicólogos" Renato Russo. Trânsito imobilizado por alguns momentos, leitura atenta, estes meninos e meninas, pararam também o coração de cada pessoa que se ateve àquele instante inusitado. Curioso, voltei lá. E, antes de perguntar qualquer coisa, recebi outra mensagem: "Não tentes ser bem sucedido, tente antes ser um homem de valor." Albert Einstein. Então, em câmara lenta, fui revendo a minha vida e os valores que ela teve para então, lívido, deixar o coração voltar a bater. Era preciso agradecer e parar para pensar.

Mas também era necessário saber mais. Os alunos, meninos e meninas do Colégio Olavo, deram a resposta mostrando o que é e como se vive um dia da ação de graças. Visitaram doentes no Hospital São Francisco, em especial as crianças internadas no setor infantil; buscaram se integrar com os jovens do CRAS para troca de idéias sobre a história do Dia de Ação de Graças, ao mesmo tempo em que procuraram entender como funciona o atendimento e as atividades daquela instituição; fizeram uma linda apresentação musical com violinos, refletindo com os membros da comunidade sobre a obra de Johann Sebastian Bach. Questionada, em plena rua, a professora de inglês, Odete A. M. da Silva Dannebrock, textualmente me disse o seguinte: "Pensamos na realização de algumas atividades, pois não faz sentido apenas agradecer pelas conquistas, precisamos desenvolver e resgatar valores como solidariedade, caridade, humildade, amor ao próximo, a vida. Há simplesmente tanta coisa que podemos fazer pelo próximo, que nos faz perceber que os nossos problemas são tão simples de resolver."

Dois dias depois, outro quadro: A poesia tomou vida com duas jovens do SESI. Em plena rua liam aos que passavam poesias, frases, loucuras do Paulo Leminski. No Café Central, sentado, ouvi uma declamar: "O destino quis que a gente se achasse, na mesma estrofe e na mesma classe, no mesmo verso e na mesma frase." Recebi o bilhetinho e sem falar nada fiquei olhando, intrigado, ela se afastar. Mas veio a outra e com ela nova declamação: "Nada se leva. A não ser a vida levada que a gente leva." Enfim, não se pode negar que na semana passada, o sentimento comum entre alunos do Olavo, poetisas do SESI e a comunidade, era o da partilha, de uma nova visão, de esperanças, aspirações, experiências e consciências por uma mundo melhor. Eles sabem, agora, da influência que podem ter sobre os outros, dos efeitos das palavras, atitudes e dos sorrisos que transformam vidas. A meta a que se propuseram, promove a justiça, trabalha pela paz e faz de cada um deles, meninos e meninas do Olavo e lindas poetisas do Sesi, um novo tipo de pessoa e de sociedade, na qual cada indivíduo tem a oportunidade de ser plenamente humano e de aceitar a responsabilidade de promover uma nova vontade de viver.

Pensamento da semana: "Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer." Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"BEM VINDA SEJAS, AMIGA MINHA, A MORTE"


Santo Techio ("in memorian" com 90 anos) e Gema Catharina Maccagnam Techio hoje com 85 anos: Alegria de viver.
Cesar Techio
Economista – Advogado
techio@concordia.psi.br

A morte não pode ser superada por uma história de fé e de crença na vida eterna. Mesmo porque, crença é sinônimo de dúvida, pois se a certeza existe, então, para que acreditar? Se um comunicador de uma rádio informa sobre a existência de um incêndio num bairro, por conta da credibilidade de quem falou e do meio de comunicação é possível acreditar que seja verdade. Mas, se você for até lá, ver o incêndio , sentir o seu calor e tocá-lo, para que acreditar e ter fé de que ele existe? Diante da realidade do fato a crença é absurda, dispensável, desnecessária. A certeza absoluta em Deus é o ponto em que cessam todas as angústias e medos, principalmente medo da morte. Se Deus existe, porque preciso acreditar, ter fé de que Ele existe? Uma grande fé tem a ver com uma grande dúvida, pois sem qualquer dúvida para que a crença? Assim é a morte. Se ela é certa ou se ela não existe sob a perspectiva da religião, para que o medo, a preocupação, a angústia? Quem vive intensamente, em plenitude e cheio de amor não tem tempo sequer para pensar na morte e, quando ela chega, é como uma amiga, uma irmã. Francisco de Assis, a beira da morte, exclamou: "Bem vinda sejas, irmã minha, a morte!" Tendo vivido intensamente, convidou os demais irmãos para cantarem o Cântico do Irmão Sol, ao qual acrescentou a última estrofe em louvor a Deus pela morte corporal.

"Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória e a honra e toda bênção. A ti somente, Altíssimo, são devidos e homem algum é digno de te mencionar. Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o irmão sol que, com luz, ilumina o dia e a nós. E ele é belo e radiante com grande esplendor: de ti, Altíssimo, carrega significação. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã luz e as estrelas, no céu as formaste claras e preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento e pelo ar, pelas nuvens e todo o tempo pelo qual dás sustento às tuas criaturas. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água que é muito útil e humilde e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo pelo qual iluminas a noite e ele é belo e jucundo e robusto e forte. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa mãe terra que nos sustenta e governa e produz diversos frutos com coloridas flores e ervas. Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e tribulações. Bem aventurados aqueles que sustentam a paz porque por ti, Altíssimo, serão coroados. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa morte corporal da qual nenhum homem vivente pode escapar. Infelizes aqueles que morrem em pecado mortal; bem-aventurados aqueles que se encontram em tua santíssima vontade porque a morte segunda não lhes fará mal. Louvai e bendizei a meu Senhor e agradecei e servi-o com grande humildade."

Nascemos nus e desta terra nada levaremos. Bem no finalzinho, antes de morrer, Francisco de Assis pediu para que o deixassem nu sobre a terra e disse aos seus confrades: "Fiz o que tinha que fazer. Que Cristo vos ensine o que cabe a vós. O Santo Evangelho é mais importante que todas as demais instituições". Como não bastasse, animou o seu médico falando: "Irmão médico, dize com coragem que a minha morte está próxima. Para mim, ela é a porta para a vida!"

Neste belíssimo dia dos finados, pensemos nisso. Reflitamos na certeza da misericórdia de Deus e no viver totalmente, em plenitude no aqui e agora, sem preocupações com a morte, que é certa. O amanhã cuida de si mesmo, ou no dizer de Jesus: "Senhor, dai-nos hoje o pão nosso de cada dia". Ele não pede para amanhã, para o mês que vem. Pede somente para o dia de hoje, que é mais do que o suficiente.

Pensamento da semana: "Enquanto Deus é Deus, enquanto Ele é o vivente e a Fonte de toda a vida, eu não morrerei, ainda que corporalmente morra!" Leonardo Boff.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Muamar Kadafi: Amigo, irmão e mártir?


Cesar Techio
Economista – Advogado
techio@concordia.psi.br

Na abertura da Cúpula da União Africana, em Sírtre, na Líbia, em 2009, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na condição de Chefe do Estado Brasileiro, chamou Muammar Abu Minyar al-Gaddafi de “Amigo e Irmão”. Ao assim proceder afrontou a Constituição Federal do Brasil, secular e de cores humanitárias. Longe de se lhe atribuir mais um rompante visando simples aproximação comercial e de avançar de forma atabalhoada numa diplomacia duvidosa e digna de desconfiança, “Lula” deixou público e consolidado suas diretrizes ideológicas e do governo que comandava. Não se trata, aqui, de estigmatizar a linha ideológica do ex-presidente e de seu governo, mesmo porque tal afirmação, no quarto encontro com o sanguinário ditador líbio, fez parte de uma orquestra harmonizada por “amizades” com outros líderes que ignoram completamente a palavra democracia e o que ela significa. Amizade, por exemplo, com Mahmoud Ahmadineja do Irã, com Daniel Ortega, da Nicarágua, com os irmãos Raúl e Fidel Castro de Cuba e com Hugo Rafael Chávez Frías, da Venezuela, este que afirmou diante da morte de “kadafi”: “Eles o assassinaram, é outro ultraje. Devemos lembrá-lo como um grande lutador, um revolucionário e um mártir". Que a diplomacia internacional sob o comando de Lula, defletida à esquerda ditatorial, foi uma vergonha, somente os fanáticos esquerdistas e outros “istas” podem negar. Os que amam a paz, os direitos humanos, o estado de direito, o secularismo do estado como prestador de serviços e a democracia multipartidária, não. Nenhum tipo de cooperação econômica ou tratado de livre-comércio pode ser estimulado com governos que trancafiam e matam opositores. Mesmo que tenham mais de 80 bilhões de dólares em suas contas pessoais, obviamente surrupiados do povo sofrido de seu país.

Ora, porque Lula, não chamou de irmão ou irmã, líderes de países livres, como Nicolas Sarkozy da França, Angela Merkel da Alemanha, Barack Obama dos Estados Unidos, David Cameron da Grã-Bretanha? Tinha ele todo o direito de “querer” ser irmão e amigo até de satanás, se quisesse, mas não na condição de presidente de um país que ama a democracia como o Brasil. Nós, brasileiros, não queremos nem ouvir falar destes ditadores, tiranos e apoiadores do terrorismo. Nós, os que amamos o Brasil e sua tradição democrática, desprezamos regimes sanguinolentos, ditatoriais e ficamos com o que afirmou o presidente americano, na quinta feira, dia 20/10/2011, ao se referir ao oriente médio: "Para a região, os eventos de hoje provam mais uma vez que os regimes mão-de-ferro sempre acabam. Em todo o mundo árabe, cidadãos se levantaram para exigir seus direitos. Os jovens rejeitam com força a ditadura, e esses dirigentes que tentam recusar sua dignidade não conseguirão fazer isso". Ficamos, com o povo líbio, no exato dizer da NATO (OTAN): "Nós recebemos com satisfação a notícia do fim do regime de Kadafi e concordamos que hoje é um dia extraordinário para a coalizão liderada pela Otan e, acima de tudo, para o povo líbio."

Uma coisa é certa. Ninguém e nada substitui a democracia e a rotatividade do poder num regime multipartidarista. O cidadão prestou serviços ao seu país na condição de presidente, com toda a honra e alegria deve pegar sua mochila e voltar para casa, bem no estilo franciscano. A síndrome de se agarrar ao poder a todo o custo, mesmo com as "melhores das intenções" e querer mandar no mundo, é próprio de psicopatas e loucos. Aliás, mesmo no regime democrático, a longa permanência de um grupo político ou de um partido no comando dos municípios, estados e do país, cria pequenos ditadores, cheios de vícios, pois passam a sentir que a Administração Pública é propriedade deles, assim como a "casa da sogra". A ausência de mudança é porta aberta para a corrupção, ganância e tirania.

Pensamento da semana: Nosso respeito e orações aos mais de 20 mil líbios que morreram desde o início da insurreição. Estes sim foram verdadeiros amigos, “irmãos” e mártires da liberdade.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ENCHENTES: PRECISAMOS ACABAR COM ELAS


Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Uma coletânea de artigos sobre o problema das enchentes nesta cidade de Concórdia compõe a essência do que penso sobre o assunto. Nela discorro sobre o intenso desmatamento na bacia hidrográfica do Rio dos Queimados, o estreitamento do canal com o avanço urbano da cidade e construção em cima do rio ao tempo em que a comunidade e o Poder Público não tinham plena consciência dos problemas ambientais, muito presentes nos dias de hoje. Mesmo porque, a camada vegetal da mata exuberante de antanho, “segurava”, à montante do rio, as águas pluviais. Alguns destes artigos podem ser lidos e relidos no blog http://cesartechio.blogspot.com/. Após o último transbordamento, na quinta-feira, 13/10/2011, me proponho avançar de forma objetiva na reflexão sobre o assunto, desta feita, com uma sugestão óbvia e viável. Em primeiro lugar ficou provado o que todo mundo já sabia, que a barragem seca é insuficiente para conter o excesso das águas das chuvas. No exato momento em que as águas lamacentas saiam do leito do rio e avançavam sobre o centro da cidade, causando prejuízos e destruindo bens, a barragem, ainda em fase de construção, sequer alcançava seu limite de transbordamento. Meu vizinho, o empresário Perizollo, desesperado com mais uma enchente e prejuízos à vista, gritava na rádio que a solução é o urgente aprofundamento do leito rochoso do rio e que o Poder Público não ouve o povo. Que candidatos, depois de eleitos não ouvem o povo é dispeciente repetir. Que aqui em Concórdia prometeram construir o canal e não o fazem há muitas gestões e enchentes, é público e notório.

Então, fazendo deste espaço de mídia um espaço útil, falemos sobre critérios de escavabilidade de maciços rochosos e de métodos de escavação, pois é evidente que o empresário Perizollo está coberto de razão. O edifício Mirage, de propriedade do Zeca Olmi, onde se situa a Justiça Federal, é o melhor exemplo da utilização de dinamite inteligente. Cinco andares se projetaram solo adentro, em maciço rochoso, ao lado de um alto edifício residencial, sem qualquer problema significativo. Indiscutível que é viável aprofundar o leito do rio, com a utilização de explosivos inteligentes, que cortam a rocha com precisão, sem danos às estruturas civis existentes. Esta forma de escavação disciplina as vibrações, projeção de partículas e limites de ação. Outra possibilidade técnica é a utilização de processos mecânicos que podem ser usados de forma mista, com dinamites inteligentes, conforme a litologia, resistência das rochas encontradas e tipos de edificações que ladeiam o rio.
Relativamente às técnicas de escavação mecânica o mercado dispõe de variada gama de máquinas de corte, incluindo martelos hidráulicos, ou ponteiros hidráulicos como os que observamos trabalhando há mais de um mês num terreno particular, na Rua Getúlio Vargas, acima do Hospital São Francisco. O próprio município, com seus engenheiros, arquitetos e mão de obra pode iniciar o trabalho sem a necessidade de “ponteiros” braçais pagos diretamente pela comunidade atingida, como bem sugeriu o digno e exemplar empresário Perizollo. Iniciando este trabalho imediatamente, seria possível prever um cronograma de, no máximo, dois anos para a conclusão do aprofundamento do rio em pelo menos três metros por quatro de largura. Tudo isso sem a necessidade dos transtornos da prometida e nunca cumprida construção do canal extravasor sob a Rua Dr. Maruri. Simples, rápido e viável. Muitas empreiteiras poderiam oferecer pré-estudos sob a responsabilidade de projetistas e consultores geotécnicos habituados a obras semelhantes, na medida dos seus interesses em executar a obra, mediante licitação pública.

Pensamento da semana: “Errar é humano. Não admitir a própria falha e culpar os outros é política.”

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

“EM CIMA DO MURRO? JAMAIS!”


Cesar Techio – Economista
cesartechio@gmail.com

Este é o enigma das eleições: chega o momento em que você tem de escolher. Então, para simplesmente não “chutar” o voto no primeiro candidato que aparece, é preciso escolher, com urgência, as bases para a futura decisão. O primeiro passo é se filiar num partido político, verdadeiro instrumento que viabiliza a transformação da vida em sociedade. Muitas pessoas, capazes, inteligentes, sérias, honestas e experientes, se negam a ingressar na política porque, dizem, é suja. Ledo engano. A política não é suja. Ela é feita por pessoas, portanto, são os maus políticos os que contribuem para criar uma imagem negativa da política. Ora, se a massa não cresce, não adianta jogá-la fora. É preciso colocar fermento para ela crescer: “Seja fermento na massa.” Melhorar a política é proposta de muita urgência. Se você adia sua decisão, jamais será capaz de ser um agente de transformação. Isto precisa ser feito imediatamente, antes que seja tarde demais. Ao invés de se lamuriar em absurda baixa estima saia logo da zona de conforto, amiga íntima da mediocridade, da insegurança, do sentimento de incapacidade, da desconfiança em todos, porque também não confia em si, da eterna dúvida sobre o próprio valor, da inveja, do medo, da raiva, da vergonha, da timidez, do comodismo e do sentimento de inferioridade.

Não adianta ficar ensaiando a vida toda, se preparando todo o tempo para assumir responsabilidades, com medo de se expor e do que os outros vão achar de você. Em pleno ensaio, quando você perceber, o tempo já terá se escoado pelos dedos de suas mãos e, o verdadeiro drama real da vida, jamais terá sido vivido. Não tenha receio de errar. É evidente que pela frente vamos encontrar um monte de lixo. Líderes que não tem palavra, que jogam por todos os lados, que por trás fazem o contrário do que prometem e pregam ideologias estúpidas pelas quais muitas pessoas se alienam, matam, morrem, se fanatizam. Líderes, políticos, amigos, parceiros que traem até a mãe em troca de cargos, poder e dinheiro. Assim, é preciso ingressar na política com total consciência de que nada poderemos mudar, a menos que cortemos completamente essas raízes podres que infesta o meio político. Somente assim poderemos construir uma nova política, que é necessária e urgente.

Mas, se você se omite, eles vão continuar a postos, dominando e comandado a política, agarrados na insanidade do poder pelo poder. Então, não se queixe. Não reclame da miséria, da fome, do desmatamento, das enchentes, do emprego com baixo salário, da concentração de renda que enriquece meia dúzia, da ostentação dos exploradores, do escárnio dos políticos incompetentes que, em época de eleição, com a maior “cara de pau”, vão buscar o seu ingênuo votinho em meio a tapinhas nas costas e promessas de que “tudo vai mudar”. Eleitores e candidatos de terceira categoria continuam fazendo a festa na política brasileira. Sem muito discernimento apostam em propaganda e publicidade para enganar o povo. E continuam gastando em futilidades. Milhões de crianças não recebem sequer a educação básica. As cidades brasileiras não possuem sequer saneamento básico (esgoto cloacal), a saúde está um caos e os gastos públicos são destinados à propaganda, nem sempre institucional. Por estes motivos, a primeira obrigação de um verdadeiro cidadão é observar o quanto anda a sua própria cidade. Quais os problemas que enfrenta no dia a dia, se o Estatuto das Cidades e a Lei Orgânica do município são aplicados. A propósito: Desça do murro!

Pensamento da semana: “"O verdadeiro amigo não é aquele que diz: "vai em frente". O verdadeiro amigo é aquele que diz: "Vou contigo". Fernando Toscano

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

“Raiva”


Foto: Tucanos em Concórdia, centro urbano.

Cesar Techio
Economista – Advogado - cesartechio@gmail.com

È surpreendente como não sabemos lidar com as adversidades. Por qualquer motivo somos tomados por expressões de raiva que embola nosso raciocínio e acaba contaminando outras pessoas, criando um clima triste e perigoso que muitas vezes se torna uma bola de neve. Com a raiva nos tornamos vis e habituados com ela, passamos a assumi-la como parte de nossa personalidade. E assim, de natureza raivosa, acostumados a sermos amargos e secos, criamos situações de infelicidade. A raiva é um sentimento mesquinho, destrutivo, burro que cria conseqüências com as quais acabamos por arcar e, em decorrência disso vivemos em tempestade. O remédio para a raiva é nos separarmos dela e, sem reprimi-la ou expressa-la, passar a observar o quanto parecemos idiotas quando cooperamos com ela. Serenidade e tranqüilidade não caem do céu, mesmo porque somos responsáveis pelas nossas reações no dia a dia.

Assim, por exemplo, quando observo as loucuras no trânsito, principalmente de motoristas que não dão seta ao mudarem de direção, ao invés de chamá-los por merecidos adjetivos e proferir impropérios, passei a abençoá-los. Assim, acreditem, vou, aos poucos, me arvorando da pretensão de ser um grande abençoador e o transito de Concórdia, o mais abençoado do Brasil. Também conclui que a raiva é um fenômeno social, pois é impossível senti-la quando se está sozinho, por exemplo, bem cedinho, quando o transito veicular queda-se inerte no silencio da manhã (enquanto ainda dormem os abençoados). Pelas ruas vazias não se tem desculpa para a raiva. Não aparece nenhum mentecapto para frear quando se deve acelerar; acelerar quando se deve frear; defletir à esquerda, quando se deve virar à direita; andar mais depressa, quando se deve andar mais lentamente; andar devagar, quando se deve apressar... De fato, no alvorecer, com as ruas vazias, não existe motivo para a ansiedade, impaciência e nem para ela, a raiva.

A raiva também é um fenômeno político, pelo que percebi, pois é impossível senti-la num sistema de democracia inteligente. O direito de votar, por exemplo, inato a todo cidadão, nivela, por baixo o voto de um inconseqüente qualquer, de um irresponsável preguiçoso e vagabundo, com o voto de um juiz. Num sistema inteligente, o voto deveria ser conquistado pelos méritos, conquista oportunizada a todos, sem exceção. Um candidato deveria fazer jus a oportunidade de representar o povo, através de seu preparo intelectual, sua experiência empresarial, seu esforço na vida. Um cidadão que devotou toda a sua vida, ao estudo das finanças e da economia, que se esforçou o máximo para analisar e saber todo e qualquer detalhe fundamental das finanças públicas deveria ser elevado ao cargo de secretário das finanças. Aqueles que se dedicaram ao estudo da administração pública; os educadores que se aprofundaram na vivencia e filosofia da educação; os cidadãos que se esforçaram para conquistar um título universitário em medicina; deveriam liderar setores ligados a administração, educação e saúde pública. Do povo viriam nossos líderes (vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos, governadores e presidentes). “Do povo, para o povo, pelo povo”, bem como manda a democracia. Com uma diferença. Do povo viriam somente os esforçados, capacitados, preparados. Com a meritocracia, duvido que alguém enfartasse de raiva por suportar pseudo-lideres, idiotas, exploradores, ladrões, ambiciosos, corruptos, bobões e aproveitadores. Aqui entre nós: quem escolheria um médico para tratar da própria saúde, só porque ele fala bem? Quem escolheria um engenheiro para construir a própria casa, só porque ele discursa “até pelos cotovelos”? É por conta destes detalhes, que decisões de políticos fomentam a concentração da renda, a exploração do trabalho pelo capital, a miséria, a fome. E a raiva!

Pensamento da semana: Zeca Olmi no PSD, sistema da meritocracia à vista?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

PREGAÇÕES TRIUNFALISTAS

Cesar Techio - Economista – Advogado

cesartechio@gmail.com



Abrir um livro qualquer e ler a primeira mensagem que aparece é um costume que remonta aos tempos da adolescência. Abriu-se à lume, nesta bela manhã de primavera, os versículos 8-9 do capítulo 4, de uma carta que Paulo escreveu para os cristãos de Coríntios. Disse ele: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos.” Transpondo mais de dois mil anos, a mensagem cai bem aos cristãos de hoje e demonstra que, mesmo tendo fé e sendo leal a Deus, as dificuldades fazem parte da nossa vida. Evidentemente que esta mensagem se contrapõe a ideologia dos pregadores do Evangelho, triunfalistas, de que basta se converter a Jesus e que todos os bens materiais, solicitudes, graças e bênçãos se derramam sobre a vida dos fiéis.

E mais, que a riqueza e sucesso para o crente é sinal de que Deus atende as preces de quem tem fé. Todavia, não me parece que Jesus tenha garantido sucesso financeiro aos que o aceitam. Ao contrário, ele afirmou textualmente que, por mais fé que tenhamos, enfrentaremos tribulações: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (João16:33). Então, porque enfrentamos tantas dificuldades, misérias e problemas que nos afeta a tranqüilidade, a saúde, a integridade física, emocional, financeira e a própria sobrevivência, mesmo cheios de fé?

Talvez, para desnudar nossa soberba, orgulho, prepotência, empáfia e nos colocar no nosso devido lugar. Talvez, para que possamos conhecer melhor o verdadeiro poder de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11,25). Talvez, para que conheçamos os nossos limites, fraquezas e desçamos ao nível daquilo que realmente somos. A pregação triunfalista que tem como base doutrinária e ideológica a prosperidade peca por vangloriar-se da excelência das revelações. Todavia, elas não pertencem ao pregador, mas sim a Deus. Então... cabe bem o espinho na carne de que fala Paulo: “E, para que não me exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar.”

Dos meus adolescentes ouvidos, nos tempos de seminário, aos ouvidos de Francisco de Assis a respeito de como devem viver e portarem-se os pregadores, padres, pastores, bispos, missionários: “Não deveis possuir nem ouro, nem prata e não ter nas vossas cintas dinheiro como propriedade vossa, nem tampouco bolsa para o caminho, nem calçado, nem bordão” (Mt. 10, 9-10). Mensagem que também ecoa em Lucas: “Nada leveis convosco para o caminho, nem bordões, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas”; e em Marcos: “e ordenou-lhes que nada tomassem para o caminho, senão um bordão; nem alforje, nem pão, nem dinheiro no cinto, mas que calçassem sandálias e que não vestissem duas túnicas.(Marcos 6,8-9).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

“BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS: ONDE ESTAVA O ESTADO?”

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com.br

Após anos, servido pelo Corpo de Bombeiros da empresa Sadia e diante do crescimento urbano da cidade, a sociedade civil concordiense resolveu criar o Corpo de Bombeiros Voluntários de Concórdia, visando a preservação do patrimônio da comunidade e salvar vidas. Em 12/12/1990, o município editou a lei complementar 10/1990 fixando a competência da instituição para verificação do sistema de prevenção contra incêndios em edificações, como condição para a concessão de “Habite-se” de construções. Este serviço é, desde então, remunerado pelas Taxas de Exame de Projetos de Segurança Contra Incêndios e Vistoria de Sistemas contra Incêndios, fonte principal que mantém as demais atividades da corporação. Não obstante tratar-se de um sistema consolidado e revestido de lisura, probidade, competência e seriedade há mais de 21 anos, o Procurador-Geral de Justiça, por meio da Coordenadoria-Geral do Centro de Apoio Operacional do Controle de Constitucionalidade - CECCON resolveu ingressar com uma ação direta de inconstitucionalidade contra essa cobrança (autos 20110715813). Atendendo o pleito e espelhando-se em precedente do Município de Seara, o desembargador Pedro Manuel Abreu concedeu liminar pela inconstitucionalidade da Lei Complementar Municipal n. 10/1990, “pois delega serviços ao Corpo de Bombeiros Voluntários, remunerando-os mediante taxa, mormente porque esses serviços são prestados à coletividade de forma geral (serviços uti universi), e não apenas a um grupo de pessoas ou usuários determinados (serviços uti singuli).” Do corpo da decisão, que as atividades delegadas são próprias do Corpo de Bombeiros Militar, Instituição subordinada ao Governador do Estado, que tem competência privativa para editar leis sobre a "organização, o regime jurídico e a fixação ou modificação do efetivo dos militares estaduais" (art. 50, § 2º, inciso I, da CE/89).

Segundo o Desembargador, a manutenção desta situação continuaria permitindo que a competência tributária do Estado e, bem assim, do Chefe do Poder Executivo Estadual, de organizar o efetivo dos Bombeiros Militares, fosse desrespeitada. É bem de ver que o precedente, supra nominado, (AI 2009.033038-8), foi julgado procedente, por unanimidade, pelo Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, com efeitos "ex tunc" (gravíssima conseqüência, pois retroativo a todos os recolhimentos pretéritos e licenças concedidas) e "erga omnes" (atinge a todos), para declarar a inconstitucionalidade da Lei Complementar n. 8, de 21/11/2002, do município de Seara.
Inclino-me, então, a ponderar sobre a gravíssima omissão do Estado de Santa Catarina, desde a fundação deste município, a prover-lhe a básica, fundamental e imprescindível existência de um corpo de bombeiros, para agora, deitar-se em frio normativismo jurídico contra a sobrevivência do que temos de mais precioso e sagrado: o voluntariado que salva vidas em incêndios, enchentes, acidentes, desastres e catástrofes.

Onde estava o Estado durante todos estes anos em que sofremos verdadeiras hecatombes, afora riscos de trânsito, domésticos, entre outros, que colocaram em perigo a vida dos concordienses? Absolutamente confiável, as atividades de defesa civil do Corpo de Bombeiros Voluntários de Concórdia, cujo quadro efetivo é proveniente de pessoas do nosso próprio povo, corre o risco de cessar diante da “intervenção” legalista dos Bombeiros Militares, mesmo porque o cerne da decisão judicial prevê a cessação da arrecadação de valores imprescindíveis à manutenção da atividade voluntarista. Naturalmente que, com a criação de escritório militar e, possivelmente intervenção definitiva, a caserna poderá viabilizar a ascensão de carreira de seu quadro funcional engessado, inclusive com bombeiros não oriundos da nossa região.

Pensamento da semana: “Pior do que você querer fazer e não poder é você poder fazer e não querer”. Levi Dias de Santana do Corpo de Bombeiros de São Paulo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Enchente em Concórdia: Essa foi por pouco.

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com.br


O controle das águas pluviais decorrentes das intensas chuvas dos últimos dias, pela barragem seca, construída acima do Parque de Exposições somente foi possível devido a intermitência ou irregularidade da precipitação. Chovia forte a cada uma ou duas horas, por 15 ou 30 minutos. Depois parava, dando tempo para as águas escoarem e serem, em tese, controladas pela barragem. Na realidade o mecanismo é insuficiente para evitar uma enchente devastadora, no caso de precipitação intensa por mais de uma hora. A história de enchentes em Concórdia vem de longa data. Já no ano de 1983, o Município foi assolado por duas enchentes de proporções tão graves quanto à de 1998 que varreu o centro da cidade, destruindo casas, lojas comerciais, dizimando rebanhos, destruindo plantações com prejuízos incalculáveis num grande rastro de destruição. Desde então, as autoridades constituídas, tem plena consciência do grave problema e do perigo que representa o desvio do leito natural do rio e a impossibilidade de escoamento das águas no estreito canal construído pelo Município.

Já escrevi sobre isso e volto a insistir: A diferença fundamental entre as enchentes ocorridas depois da de 1983, é de que estudos demonstraram que fortes chuvas são devastadoras e que a administração Pública, gestão após gestão, pouco importa o partido, inegavelmente, não resolve o problema de forma definitiva. Informações técnicas de há muito indicam o perigo potencial que representa o Rio dos Queimados: 1988. Magna Engenharia Ltda. Estudo preliminar de 3 bacias de retenção. 1989. Planenge. Análise de 5 bacias de retenção com recomendação de adoção de canal extravasor. 1990. Eletrosul. Análise da barragem de abastecimento como inepta para redutora de cheias. 1992. Eletrosul. Relatório e projeto de galeria extravasora. 1998. Logo Engenharia S.A. Projeto de galeria extravasora. Estudos posteriores indicam a necessidade imperiosa da construção de canal paralelo ao rio como solução segura e definitiva para enchentes.

A hipótese é, pois, de omissão do dever de realizar, o Município, obras públicas necessárias ao escoamento (e não retenção) de águas pluviais. Então, com o histórico que temos é pacífico que enchentes nesta cidade continuam a ser fenômenos inteiramente previsíveis e, do quanto todo mundo sabe, evitáveis. Evitáveis são episódios, com quedas de muros, lamaçal invadindo residências, perdas materiais irreparáveis, enquanto em época de campanha eleitoral candidatos prometem construir o canal extravasor e depois, ao quanto parece se deitam na própria inoperância, na inépcia mais absoluta porque, até agora, nenhuma obra realmente eficaz foi realizada para evitar enchentes. A nossa realidade topográfica não deixa dúvidas, de que o rio dos queimados já foi rio. Não é mais, senão um canal de concreto para escoamento de águas pluviais. Daí a necessidade de percebermos, que o rio transborda porque roubou-se-lhe grande parte do leito original, desviou-se-lhe o curso, obstruiu-se-lhe a passagem livre, etc., por necessidade imperiosa do crescimento urbano numa região acidentada. E essa questão tem solução. Todavia, é omisso o município no deslinde desta grave situação que atinge a população. E, se a cada campanha os candidatos prometem resolver o problema e depois de eleitos não o fazem, é hora de elegermos alguém que assuma com seriedade este compromisso, pois, anotem aí, enchentes devastadoras e de grande porte voltarão a ocorrer. É apenas uma questão de tempo e de ingenuidade do eleitor.

Pensamento da semana: "Toda oportunidade tem um custo. Se aproveitada torna-se um investimento. Se negligenciada pode tornar-se um débito irrecuperável."

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

“E que se exploda o trânsito”

Cesar Techio - Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com

Modificações na dinâmica do micro-trânsito urbano da cidade de Concórdia demonstram que o foco da iniciativa levou em conta a circulação de veículos, mas não considerou com a devida atenção o problema da circulação de pedestres. No nevrálgico cruzamento da Rua Atalípio Magarinos com a Rua Marechal Deodoro, a sinaleira foi retirada. Pessoas idosas que necessitam atravessar a rua desprovida de sinalização precisam confiar na faixa de segurança, isso quando é possível, uma vez que os veículos necessitam avançar sobre a faixa, para encontrar ângulo de visão e verificar se é possível cruzar a “avenida”. Caminhões bi-trem avançam em meio a automóveis e tomam conta das esquinas, com dificuldade para contornar a praça central e retomar a rua Dr. Maruri. Mas, o maior problema se verifica em frente à porta principal da escola CNEC, com a implantação de uma rótula, em torno da qual, veículos giram sem maior parcimônia em meio a intenso movimento de crianças e adolescentes. Quem precisa deixar os filhos na escola não tem condições para estacionar. Os alunos, quando atravessam a rua são surpreendidos por motoristas não menos confusos. E, para dificultar, a Travessa Antonio Brunetto, agora de mão dupla, ficou super estreita com o estacionamento nos dois lados. Um perigo para os alunos da Escola Básica Deodoro que utilizam o portal sobre o canal do Rio dos Queimados. Mas, a rótula em frente ao CNEC, realmente merece destaque, pois deve ser a primeira no mundo, colada em frente a uma porta de escola. Todas as ruas transversais às ruas do Comércio, Dr. Maruri e Marechal Deodoro, necessitam, urgente, de sinalização, a fim de viabilizar o fluxo veicular, pois ingressar nestas ruas é quase impossível nas horas de “rusch”.

Anotem aí. A parcela mais significativa, fraca e vulnerável do trânsito são os pedestres. As atuais mudanças, com deficiente ou inexistente sinalização em pontos cruciais, prejudicam a acessibilidade, colocam em risco a vida da população e criam gravíssimas chances de atropelamentos. Mudar direção de trânsito é iniciativa que deslumbra, num primeiro momento, mas é secundária diante da nossa realidade urbana. Não me canso de escrever a respeito, e insisto que o problema é estrutural e exige avanços no crescimento da cidade através de eixos de expansão via Linha São Paulo, São José, BR-153, Suruvi, Santo Antônio, entre outros, com infra-estrutura pertinente que virá na medida da implementação dos mesmos

Não é mais possível continuar construindo prédios de apartamentos, kitinetes e duplas casas em terrenos encravados nos morros do anel central da cidade sem considerar o impacto na malha viária. O município continua liberando tais construções sem quantificar o volume de tráfego que os empreendimentos vão gerar nas apertadas ruas da cidade. É preciso estimar as filas geradas e o acúmulo de movimento para liberar mega-construções de moradias, como por exemplo, as dos dois enormes prédios construídos na Rua Leonel Mosele, acima do Colégio Olavo. Precisamos de uma engenharia de trânsito que caminhe junto com um projeto urbanístico adequado à nossa topografia e peculiaridades. Neste sentido, as notícias vão à contramão do bom senso, com um novo plano diretor que permitirá acréscimo vertical de andares em prédios dentro da atual zona urbana. E que se exploda o trânsito.

Pensamento da semana: “A covardia coloca a questão: É seguro? O comodismo coloca a questão: É popular? A etiqueta coloca a questão: É elegante? Mas a consciência coloca a questão: É correto? E chega uma altura em que temos de tomar uma posição que não é segura, não é elegante, não é popular, mas o temos de fazer porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta.” Martin Luther King