quarta-feira, 12 de março de 2014

IMPÉRIO GUERREIRO: É CAMPEÃ !

Cesar Techio
Economista – Advogado
cesartechio@gmail.com


                   Vivemos num meio cultural que dá incessantes sinais de organização e que expressa vitalidade na alegria de viver. Uma escola de samba tem a força de congregar todas as classes sociais e, com elas o êxito do sentimento de felicidade, realização e sucesso. Trata-se de um movimento social autoterapêutico que a todas as doenças e males espanta, pelo som compassado do samba e da dança, pelas fantasias, pelo congraçamento entre os participantes e pela cumplicidade do povo que aplaude e vibra. A Escola de Samba Império Guerreiro é uma escola que nasceu das origens multifacetadas do nosso povo e, por isso, é raiz original de parte de nossa cultura local. O Carlos (Escurinho), a Iolanda (Preta para os afeiçoados a um belo sorriso) e a Aninha (com quatro anos), fazem parte deste universo e a emoção em vê-los empenhados numa escola tão humana quanto bela, me faz sentir que Concórdia é trabalho, seriedade, família, religião, compromisso com os deveres, mas também é samba no pé.

                   A diversidade cultural é bem vinda e acolhida em todos os quadrantes do Brasil e sem ela a vida se tornaria monótona, aborrecida, desinteressante, estagnada. Não existe espaço entre nós para o rigor de atitudes de exclusão antidemocráticas e verdades absolutas. Não temos nenhuma disposição para destruir todas as rosas só para evitar os espinhos. Claro, porque na base de tudo, mesmo da alegria do carnaval promovido pelas nossas escolas de samba, estão também os espinhos, o sacrifício, o treino longo e contínuo para alcançar a melhor nota e a perfeição em quesitos complexos como Harmonia, Evolução, Bateria, Alegoria, Comissão de Frente, Samba Enredo, Fantasia, Mestre Sala e Porta Bandeira. E assim é a própria vida. Cheia de quesitos como: caráter, espírito de solidariedade e fraternidade, amor pela vida, pelas pessoas e pela natureza, honestidade, entre outros tantos. A força de vontade precisa construir campeões, como a Escola Império Guerreiro. E também pessoas íntegras, inteiras, dispostas a aceitar que o sucesso somente pode ser alcançado com muito trabalho e dedicação. A música, o samba, a arte, o canto, a dança e o carnaval sadio, como o que foi apresentado pela escola do meu coração, aqui na Rua Dr. Maruri, também podem contribuir para que nos tornemos cada vez melhores e campeões nesta passarela da vida.


Pensamento da semana: “A alegria evita mil males e prolonga a vida”. William Shakespeare.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

APLAUSOS E GRATIDÃO A FREI TARCÍSIO THEEIS

  Foto: Jornal JM Jornal Metas de Gaspar - SC
                              
                           Cesar Techio
Economista – Advogado
      
                   Ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven sempre tenho presente em minha memória a figura de um dos mais extraordinários mestres que conheci na juventude e o quão vigoroso e cheio de ideais foi aquele tempo de seminário, um dos mais belos da minha vida. Orientador, professor de música e regente do coral, seu vasto conhecimento e esforço na formação moral, disciplinar e cultural dos seminaristas, lembravam a figura de Ludwig van Beethoven e de sua história de superação diante das adversidades. Surdo, se tornou o maior compositor da história. Dizia ele: “A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia”.

                   Adolescentes ainda surdos para a música, nos fazia conhecer composições que inebriavam a alma. Em discos de vinil, ouvíamos o inesquecível “Quatro Estações” do italiano Antonio Vivaldi; o “Danúbio Azul” de Johann Straus; a Sinfonia Nº 40 de Wolfgang Amadeus Mozart; a “Música Aquática” de Frideric George Haendel; os movimentos da BWV 1060 de Johann Sebastian Bach; a maravilhosa “Valsa das Flores” de Piotr Ilitch Tchaikovsky; o polaco Frédéric Chopin com suas maravilhosas Valsa Minuto e Mazurca; Johannes Brahms com a Symphony No.3 Poco Allegretto  (a que mais me comovia), entre outras, rabiscadas no meu vetusto caderninho de música que ainda conservo como preciosa relíquia de um tempo que não volta mais, mas que ainda faz parte das minhas mais caras memórias.

                   Lembro-me da aguçada e reverente atenção às lições diárias e dos nobres sentimentos que elas carreavam aos nossos corações: fraternidade, compaixão, amor e respeito pela vida.  No hall central do seminário, grandes orquestras podiam ser ouvidas entre o jantar e a terceira hora de estudos do dia: Paul Mauriat, Ray Connif, Frank Pourcel e Billy Vaughn (este último que ouço enquanto escrevo estas linhas). “Asa Branca” e “Assum Preto” de Luis Gonzaga eram cantadas em festivais e em apresentações do coral. O estudo da história dos grandes compositores da musica popular brasileira era matéria obrigatória nas aulas de canto. Escolhi, em certo ano, Jucas Chaves, o “Menestrel Maldito”, e, por conta disso, ainda desato a rir das piadas e críticas ao “establishment” da década de setenta.

                   Soube recentemente, que Frei Tarcísio Theeis retornou à região onde nasceu, Belchior Alto - SC, para o aniversário dos seus cinquenta anos de vida religiosa. Na melodia dos parabéns, imagino todos os compositores e cantores das músicas que nos fez amar, cantando com o povo, para ele. E os pássaros em algaraviada em torno do nosso velho Seminário de Luzerna. E os aplausos de centenas de ex-seminaristas, em eterna gratidão. Aulas de canto, na grade curricular de nossas atuais escolas básicas certamente contribuiriam para uma melhor formação humana de nossa juventude, transviada num barulho infernal que, infelizmente, chamam de música...  

                                        Pensamento da semana: “Fazer aniversário é olhar para trás com gratidão e para frente com fé.” Rosaura Gomes. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

DOR E MORTE NO TRÂNSITO


Cesar Techio
Economista – Advogado

         É necessária uma visão multifacetada e multidisciplinar dos aspectos que envolvem acidentes de veículos, seus efeitos e sequelas e acuidade para coletar dados que envolvem o momento do impacto, como por exemplo: aceleração, velocidade, frenagem e força inercial, temperatura, aderência dos pneus sobre o solo, peso, condições dos pneus, umidade, condições do tempo, horário e iluminação, condições topográficas e de pista, tempo de reação entre a visão do obstáculo e a decisão de parar ou desviar, condições de trafegabilidade, ângulo de impacto, força cinética e efeitos da colisão sobre a estrutura dos veículos e sobre o corpo humano, entre outros aspectos relevantes. Além da legislação, o operador do direito deve possuir conhecimento básico de diversas ciências, necessárias para embasar os pedidos de indenização, como por exemplo: engenharia de trânsito e de construção das estradas; astronomia e geografia (posição do sol no solstício de inverno em relação ao solo, pontos cardeais do local do acidente e ofuscamento da visão do motorista); matemática; física; medicina entre outras.

         Mas, foi estudando a fisiopatologia dos traumatismos no corpo humano diante de um acidente fatal em que a vítima foi uma adolescente florescendo para a vida, que percebi o quanto o corpo humano é frágil. Tomei por base a velocidade regulamentar de 40 km/h para o local. No exato momento do impacto, com a desaceleração repentina, o fígado que tem em média um peso de 1,700kg passa a 19 kg. O coração e o rim com 0,300 kg passam a 3,2 kg. O cérebro com seus 1,500 kg passa para 16,8 kg. O baço sai de 0,150 kg para 16,8 kg. Podemos afirmar que a 40 km/h o corpo humano pesa 12 vezes mais. Internamente, as deformações e rompimentos de veias e órgãos decorrentes de uma simples colisão a baixa velocidade apresenta um quadro gravíssimo com lesões provocadas pela energia cinética absorvida pelo corpo. É preciso considerar que a desaceleração abrupta na hora do impacto vai de 40 km/h para 0 km/h em milésimos de segundos. Com isso os órgãos internos simplesmente se estraçalham, muito embora este quadro não seja perceptível externamente.

            Os efeitos das colisões quando não matam, causam sequelas terríveis, não sendo raros os casos de paraplegia, tetraplegia, aleijões que dificultam deambular, perda de visão, perda de faculdades mentais ou deformidades estéticas. A dor dos familiares que perdem um ente querido por conta da imprudência de motoristas desatentos, não tem fim.  A atroz ausência de quem amamos representa uma catástrofe emocional e psicológica praticamente irreparável e profundamente perturbadora. A violência dos acidentes de trânsito arrebenta o sistema de saúde pública, quebra a economia do país e destroça as famílias desorganizando os afetos, os projetos dos pais de verem os filhos crescerem, o amparo econômico dos genitores aos filhos menores e assim por diante. Nenhuma indenização, por maior que seja o valor arbitrado pelo juiz, supre a presença querida dos filhos, pais, mães, irmãos, namorados, amigos e colegas mortos dolorosa e tragicamente no trânsito.


Pensamento da semana:  Os que amam profundamente, jamais envelhecem; podem morrer de velhice, mas morrem jovens. Martinho Lutero.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

DESÇAM DOS PÚLPITOS


Cesar Techio
Economista – Advogado
  
            A sociedade secular moderna, base do Estado laico, ao mesmo tempo em que defende a liberdade de consciência e de cultos, a boa convivência entre os credos e religiões, combatendo o preconceito e a discriminação religiosa, atenta com acuidade para a separação entre Estado e Igreja. Esta visão de origem renascentista deu ao homem uma imagem sobre si mesmo e abriu-lhe a possibilidade  do aprimoramento de seus próprios ideais. Esta concepção de comportamento e de consciência social contribuiu de forma expressiva para o desenvolvimento da arte, filosofia, ciências e de uma consciência livre. Todavia, a liberdade ilimitada, sem freios, carrega o perigo do descomprometimento com uma consciência crítica e um velado desprezo pelo esforço de pensar. Este “deixai fazer, deixai passar” em épocas eleitorais, gera consequências desastrosas, entre elas a de tornar a população joguete nas mãos de políticos desonestos, mas bem articulados na mídia e nas estruturas milionárias das campanhas eleitorais.  

     A vitória da politicalha ordinária, alheada dos padrões positivados pela legislação eleitoral, se faz por conta da escassez de raciocínio e da pouca informação de eleitores analfabetos funcionais, “livres” para serem manipulados. Este quadro tenebroso floresce em solo adubado principalmente pela alienação do povo cristão e pelo pouco caso dos que pregam nos púlpitos das igrejas, acomodados e pouco interessados em identificar candidatos comprometidos com valores morais cristãos (solidariedade, caridade, ética, justiça) e com competência administrativa e legisferante. Não me parece que paz, prosperidade e dignidade humana sejam valores alcançáveis apenas pelo discurso moralizante, oração ou evangelização, mas também com a incorporação de práticas de cidadania concretas, entre as quais, com a devida vênia, a militância política. 
        
     Em que pese a prioridade da missão das igrejas no mundo ser a de proclamar o “evangelho do Reino” e a relação com o mundo vir depois, isto não significa que devam se omitir ou sentir como secundária ou opcional a relação com o mundo, mesmo porque, a proclamação do evangelho não pode ficar restrita ao aspecto verbal, mas deve incluir ações concretas que expressem o amor de Deus pelas pessoas, conforme Tiago 2.14-17 e João 3.16-17: 1 - “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano e algum de vós lhes disser: Ide em paz, mantenham-se aquecidos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”. 2 -"Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele”.

     Por estes motivos, não creio ser aceitável que cristãos de carteirinha e líderes religiosos se excluam da vida política, como se sua sagrada missão evangelizadora nos púlpitos possa, por si só, concretizar o Reino ainda nesta terra. É preciso participar da política e identificar bons candidatos com os sinais do Reino de Deus: solidariedade com os sofredores (Mt 25.34); Humildade (Mt 5.3); fazer a vontade de Deus (Mt 6.10 - 7.21; 21.31,43); justiça, paz e alegria (Rm 14.17); fidelidade (Lc 19.11ss);  dependência e confiança em Deus (Mt 19.23s - Mc 10.23-25 - Lc 6.20); novo nascimento (Jo 3.3,5); amor a Deus e ao próximo (Mc 12.34); justiça (Mt 5.10 - 6.33); obediência (Mt 5.19s) e vigilância (Mt 25.1).

Pensamento da semana: “Uma igreja não existe para si mesma, mas sim para o mundo”.  George Carey – Assembléia de Deus

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O MISTÉRIO DAS MULHERES E O CALÇADÃO DA RUA DO COMÉRCIO


















Foto: http://noticias.uol.com.br/album/2012/07/13

               
           Às vezes questões simples me fazem refletir em queda livre às profundezas dos mistérios. Andando pela Rua do Comércio passei a observar as incontáveis pedrinhas brancas e pretas colocadas lado a lado em sinuosas curvas, as quais, abaixo das belas e frondosas árvores plantadas pelo Miotto, dão a impressão de um cartão postal. Mas é o movimento de pessoas que dão vida àquele ambiente urbano. No burburinho de um final de semana, com formaturas andando soltas pelo Clube 29 de Julho, mulheres elegantes, vestidas a rigor, acompanhavam, apressadas e com cuidado, as curvas das calçadas. Mesmo compassadas, duas delas levaram as mãos aos sapatos retirando-os, indignadas, nervosas, uma aos prantos, saltos quebrados: famigeradas pedrinhas!

    Andar de sapatos sem salto em dia de gala? Impossível. E mesmo em dias triviais, as mulheres gostam de andar de salto alto. É mistério que me intriga e por mais que me esforce por descobrir o porquê desta afeição feminina, mais esbarro em teorias inexplicáveis. Afinal, por que tenho que saber? As mulheres são assim. Isto é simplesmente um fato. O mar é azul. Pergunta-se: por quê? É azul porque é. Não há um porquê. Se o porquê pudesse ser respondido, então o gosto das mulheres por salto alto não seria um mistério. E as próprias mulheres são misteriosas nos seus gostos. E são misteriosas porque nenhum porquê é relevante e, se fosse possível dar respostas a áurea que envolve a beleza de seus gostos, então não haveria mistério e a própria vida não teria mais sentido. Por isso desisti completamente de tentar compreender. Apenas me convenci de que usar salto alto não é um problema. Porque, fosse um problema, como qualquer problema poderia ser solucionado. Bastaria andar de sapatos sem saltos, por exemplo. Todavia é um mistério. E um mistério é aquilo que não pode ser solucionado, além do que, a insolubilidade é inerente ao próprio mistério. Portanto, esqueçamos a compreensão do gosto das mulheres por salto alto, pois ficaremos confusos e perdidos.

    Entretanto, desconfio que o problema tenha a ver com as pedrinhas, muitas soltas, a maioria distanciadas uma das outras e enjeitadas por frestas encardidas de bactérias de décadas. Penso em construir uma teoria sobre a quebradeira diária de saltos e o pavor das mulheres pelo calçadão central: A culpa é das pedrinhas. Mas, enquanto desenvolvo a teoria, quem sabe algum vereador piedoso faça uma indicação para o nosso nobre alcaide para que retire as famigeradas do local e faça um calçadão menos agressivo, mais limpo e amigo das nossas lindas mulheres.

Pensamento da semana: Uma mulher sem mistérios é uma mulher sem magia. Eliane Azevedo

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ADEUS FREI DIONÍSIO


Cesar Techio
Economista – Advogado

              
  Aproximando-se da morte, Francisco de Assis acrescenta a última estrofe ao Cântico do Irmão Sol que havia composto e pede aos seus confrades que o entoem em homenagem a Morte a quem com amor chama de “Irmã”: “Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, à qual nenhum homem vivente pode escapar...”. O segredo para tamanha serenidade na hora de partir é simples. Francisco não acumulava dinheiro, poder, prestígio, bem no prumo do que disse Jesus: “Abençoados os pobres de espírito, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores.” Pouca gente leva a sério este ensinamento e por isso a maioria das pessoas nunca está preparada para partir. O desespero normalmente fica por conta das posses, ou melhor, da possessividade. Quanto mais se possui, mais se teme perder. Mas, se não se possui nada, quando for a hora de partir, se estará pronto, cantando como Francisco. O problema é que se vive confundindo bens materiais, poder econômico e sucesso financeiro com bênçãos de Deus, sem se perceber que a verdadeira prosperidade é a do ser e não a do ter; que todo o desejo em ser especial é egoísta e que a viagem do ego gera o medo da partida.

  Quem não carrega nada consigo sempre está disponível para o novo, para o desconhecido. Assim são os franciscanos. Chutam o ego e se enchem interiormente de um espaço vazio, no qual não cabe bens, riquezas, poder, superioridade. O amor pela natureza e pelas pessoas, a celebração pela vida e a comemoração pela simplicidade ocupa o espaço interior destes sucessores de Francisco.  Por isso, quando partem, vão felizes. Dormindo em rede nordestina, com barbas grisalhas e roupas surradas, um franciscano excepcional defendeu entre nós, com grande força moral, a mãe natureza, a mãe terra, a preservação do meio ambiente, a dignidade do ser humano. Nos cursos de teologia abertos ao povo deu exemplo de vida a quem teve olhos para ver e ouvidos para ouvir. Cumprida a missão, pediu transferência para Curitiba para tratamento de saúde (cardiovascular). Vai da mesma forma como chegam todos os franciscanos: sem nada para carregar (E disse-lhes Jesus: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, e não leveis duas túnicas. Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. Se alguns não vos receberem, ao sair dessa cidade, sacudi o pó dos vossos pés, como testemunho contra eles” Lc 9, 1-6).

  Em rápida conversa, me confidenciou que o exemplo que deixa por onde passa, é o de ficar sempre do lado da verdade e o de ser fiel até o fim: “Isso faz amigos e inimigos, ser fiel tem a ver com fel, é amargo, mas é o caminho”. Dionísio Ricieri Morás me deixa a mesma impressão que tenho de Francisco de Assis: a de um ser humano que sabe trazer qualidade de consciência, que sabe introduzir a mensagem de Jesus Cristo na vida comum do povo sem a pretensão de estar fazendo algo de especial, apenas cumprindo um simples dever: "Ide a todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15). Por isso é um pregador extraordinário, que deixará saudades. Que ao partir não sacuda a poeira dos pés e ore por todos nós.


Pensamento da semana: “Viver é sempre dizer aos outros que eles são importantes. Que nós os amamos, porque um dia eles se vão e ficaremos com a impressão de que não os amamos o suficiente.“ Chico Xavier.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

SANTIDADE SEM PROFISSIONALISMO GERA MEDIOCRIDADE

                                                      Vino in un felice anno nuovo

Cesar Techio
Economista – Advogado

            De nada adianta santidade, correção nas atitudes, postura de oração permanente e profunda intimidade com Jesus se não houver serviço ao próximo, com competência, precisão, abnegação e realização cuidadosa do dever quotidiano. “O profissionalismo, que significa competência, estudo, atualização, vai-se formando e, pelo menos em parte, adquire-se; mas, precisamente para que se forme e seja adquirido, penso que é preciso haver, desde o início, uma boa base. Quando não há profissionalismo, lentamente vai-se escorregando para o nível da mediocridade.” Embora a santidade seja a mais importante na hierarquia dos valores é preciso considerar que está na base da nossa vida cotidiana também a qualidade do trabalho e do serviço. “Santidade significa vida imersa no Espírito, abertura do coração a Deus, oração constante, humildade profunda, amor fraterno nas relações.” Amor fraterno também significa evitar fofocas e murmurações porque lesam a qualidade das pessoas, lesam a qualidade do trabalho e do ambiente. Em síntese essa mensagem do Papa Francisco cabe a todas as pessoas, criaturas de Deus, cristãos engajados e batizados, enfim, a todos, independentemente da congregação, igreja ou religião a que pertençam.

            A ela gostaria de acrescentar o preconceito, como o maior veneno que destrói a fé, entristece o coração de Deus e alegra o coração do diabo. Ouvi da boca de um pentecostal, que católico não é cristão e, a partir desta perspectiva reducionista passar a explicar os motivos de sua convicção. Também ouvi da boca de um pastor que não se deve chamar os padres de “padre”, que significa “pai”, porque na realidade são apenas sacerdotes romanos, simples serviçais ligados à Cúria Romana. Também ouvi da boca de um líder católico que pentecostais correm o risco do fundamentalismo religioso. Então, fico a me perguntar neste início de ano de 2014, que santidade é esta que busca o preconceito e a fofoca entre o povo de Deus? Que santidade é esta que divide e rejeita a solidariedade e a fraternidade como raiz do verdadeiro amor?

            A impressão que tenho, neste alvorecer do ano, é que os cristãos, os líderes religiosos, as igrejas, assim como as instituições em geral, imersas nas suas próprias verdades, filosofias e doutrinas, perderam a noção de conjunto, de humanidade global, de amor infinito que a todos acolhe, da verdadeira mensagem de Jesus Cristo derramada nos Evangelhos e no exemplo dos apóstolos. Um cristianismo assim, dividido, preconceituoso, que não busca superar as divergências culturais e ideológicas é arrogante, anti-ecumênico, atrapalha a vida, desqualifica o profissionalismo no serviço, afasta o Espírito Santo, torna medíocre a santidade, nos impede de sermos felizes e de alcançar o céu.

           Pensamento da semana: Feliz ano novo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O NATAL ESTÁ GRAVADO NO SEU CORAÇÃO


Cesar Techio
Economista – Advogado

              
     Embora seja por meio de palavras que venho me comunicando com você, leitor, não se prenda literalmente a elas.  Meus ensaios não são mentais, intelectuais, filosóficos nem fruto de pensamentos doutrinariamente ordenados, mas de sentimentos que brotam espontaneamente do coração. O mover dos meus dedos ao lançar na tela do computador as linhas de minhas crônicas, é impulsionado pelo desconhecido. Quando começo não sei aonde vou chegar, não tenho nenhum mapa, conceito pré-concebido, nenhuma direção. O título normalmente vem depois. Serve para instigar a curiosidade, afinal, em que pese termos viajado durante todo este ano por caminhos inexplorados, as palavras vão fluindo na esperança de que alguém, mesmo que por um instante, se divirta e compreenda.  Não tenho certeza de nada, estou sempre hesitante. Não tenho dogmas em que me apoiar e vou tendo que buscar meus próprios caminhos. O tema surge de repente e escrevo, quase sempre, em cima da hora da impressão gráfica.  

E assim é a própria vida. Precisamos nós mesmos nos inventar, reinventar, surpreender e construir o próprio caminho, “em cima da hora”, minuto a minuto, na adrenalina, de forma livre, sem qualquer imposição ideológica ou dependência disso ou daquilo. Apenas alguns princípios basilares precisam capacitar o nosso discernimento, a nossa compreensão e o nosso agir, quais sejam: 1º - Caridade. A caridade é benigna, não é invejosa; não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade (I Corintios 13,4-7);2º -Amor.  “Ama e fazes o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos” (Santo Agostinho); 3º -  Esperança. “A esperança tem duas lindas filhas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las” (Santo Agostinho).

Sustenta tudo isso, princípios do Direito Natural, considerados bens humanos evidentes em si mesmos, que não dependem para serem acatados de códigos de lei, de ameaça de cadeia ou do medo de ir para o inferno. No dizer de Paulo de Tarso: "Os pagãos, que não têm a lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, embora não tenham a lei eles mostram que o objeto da lei está gravado nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência, bem como os seus raciocínios” (Romanos, 2:14-15). Neste natal, leitor, enquanto festeja o nascimento de  Jesus, reflita sobre isso.

Pensamento da semana: O Natal começou no coração de Deus. Só estará completo quando alcançar o coração do homem. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

IRMA GROSS CASAGRANDE: NATAL COM OS SURDOS




Cesar Techio
Economista – Advogado
        
      
                Os surdos também ouvem. E vêem. E sentem e percebem o mundo que os circunda. A ausência de vibrações sonoras não os impedem de auscultar as vibrações da alma dos que lutam pela inclusão social deles. As habilidades linguísticas e de comunicação que os capacitam cognitivamente merecem amparo legal em nossa legislação. O Decreto 6.949/2009 se abebera em fontes do direito internacional, na medida em que promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, assinado em Nova York em 30 de março de 2007 por vários países. Com efeito, o primeiro artigo deste decreto impõe que a Convenção seja executada e cumprida tão inteiramente quanto o texto nela contida. E, seu principal propósito (portanto, com força de lei) é o de promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais a todas as pessoas com deficiência, respeitando sua dignidade.

             Nesta senda, em nosso município, a Associação de Pais e Amigos dos Surdos – APAS e o Centro de Atendimento Educacional Especializado – CAESP, com mais de cinquenta alunos, presidido e coordenado, respectivamente, por Irma Gross Casagrande, consagra de forma virtuosa e admirável os objetivos de inclusão social previsto na legislação. Oferecendo aos seus alunos o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a associação se amolda ao espírito da Lei 10.436/02 que reconhece o sistema como a língua nativa das pessoas surdas. Entre vários outros cursos que são oferecidos pela associação, chama a atenção o empenho da APAS em incluir pessoas surdas no mercado de trabalho com o apoio de diversos empresários.

            Por estes motivos, neste natal invoco o nome de Irma Gross Casagrande e de seus pares, as intérpretes Lidia P. Almeida e Thaise Bochi, a professora surda Graciela Krakecker Coutinho e ainda do professor de informática educativa para surdos, Elton Ferreira Nunes, como exemplo de pessoas voltadas a um projeto educativo e de trabalho focado no nascimento para uma nova vida. O natal representa, acima de tudo, o nascimento de Jesus Cristo e, para sermos verdadeiramente coerentes com a nossa fé, é preciso de forma concreta mudar a nossa vida, permitindo que ela renasça com as cores da solidariedade e do amor ao próximo. É urgente abandonarmos o sepulcro onde mora nosso egoísmo fajuto e nossas reclamações diárias para irmos ao encontro de pessoas que realmente precisam de ajuda.

            Para que Deus ouça de fato nossas preces neste natal, é necessário abrirmos nosso coração e abraço aos que realmente precisam de apoio. Nossa família (que quase sempre ignoramos), nossos amigos e nossos irmãos de caminhada terrena, também precisam renascer para uma vida mais digna e feliz. A nossa decisão em ajudá-los nesta empreitada, é fundamental para que este milagre de amor aconteça.
  

 Pensamento da semana: Para quem busca Cristo, sempre é natal ! Boas Festas amigos leitores.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

MINISTÉRIO PÚBLICO: O VERDADEIRO QUARTO PODER.


Cesar Techio
Economista – Advogado

            Desnecessário esgrimir doutrinas ou colacionar vasta jurisprudência para fundamentar os ganhos do Brasil com a derrubada do PEC da Impunidade (apelido da falecida PEC 37 para quem tem raiva de corrupto). É claro como a luz do Big Bang, que a autonomia do Ministério Público para combater diretamente a criminalidade utilizando-se do instrumento investigatório, encheu de regozijo o povo brasileiro. O Ministério Público, por imposição constitucional, tem mais do que o poder, mas o dever legal e funcional de fiscalizar as polícias, realizar investigações e ouvir testemunhas por conta própria, além da liberdade para fazer operações conjuntas com as polícias judiciárias dos Estados e da União. O plus de tudo isso é o fato de o Ministério Público possuir em seus quadros, não simples agentes persecutórios, técnicos do direito, aplicadores da lei, mas verdadeiros juristas com preocupações morais, políticas, éticas e de cidadania.

          Hoje, mais do que nunca, o Ministério Público se mostra como instituição modelar porque tem a capacidade e a aptidão de colocar o direito e a justiça como instrumento de consciência vinculado ao contexto social e econômico, animado com o propósito de enxergar, além do que aparentemente parece existir, a poeira debaixo dos tapetes das casas dos criminosos e o esgoto corcoveado nos porões das más Administrações Públicas.

         Esta vocação institucional encontra fundamento no art. 127 da Constituição Federal, que afirma ser o Ministério Público instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Superando a concepção de que a  imprensa é o quarto poder, erige-se em verdadeiro quarto poder da República porque, assim como os demais poderes do estado democrático (legislativo, executivo e judiciário), possui independência institucional. É o que se conclui do disposto no § 1º do mesmo artigo, de que são princípios institucionais do Ministério Público a unidade, a indivisibilidade e a independência funcional.

          Ora, se a independência (autonomia funcional) é princípio institucional, então a instituição deve ser considerada efetivamente como Quarto Poder da República. E, francamente? “Pari passu” a ação do Poder Judiciário, o Ministério Público é o poder que mais gera tranquilidade e orgulho aos cidadãos na medida em que demonstra empenho e desempenho na ruptura do vetusto sistema de impunidade e firme determinação na construção de uma sociedade mais justa.


  Frase da semana: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”. Guimarães Rosa – Riobaldo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PODER JUDICIÁRIO: QUEM O DIGNIFICA?



               Cesar Techio
               Economista – Advogado
                cesartechio@gmail.com.br
                  
                Membro do Poder Judiciário catarinense, ingresso no ano de 1983, em conversa serena e emocionada pela chegada da aposentadoria, relembra o exercício de atividades funcionais junto a diversos magistrados, entre os quais o Dr. Salim Schead dos Santos, Dr. José Carlos Karsten Köller, Dr. Marco Aurélio Gastaldi Buzzi e Dr. Paulo Henrique Moritz da Silva. Com o espírito leve pelo dever cumprido em mais de trinta anos, José Tadeu Vicari marcou de forma indelével a alma de seus companheiros de trabalho, pela disponibilidade permanente em servir, ajudar, colaborar, orientar e ser prestativo sem medidas. Mas foi junto aos jurisdicionados e à classe dos advogados que o inventário de todos seus bons serviços e de sua infinita amabilidade se estende, de modo que levaria longe a descrição de suas atividades erigidas em paradigma para os seus pares e para todos aqueles que desejam seguir uma carreira dentro do funcionalismo público, digna de admiração.

     Como Agente Judiciário no início e Chefe da Central de Mandados até o dia 31 de outubro de 2013, em seu semblante sereno e de paz, talhado por um espírito altruísta, se percebe a missão cumprida de quem colaborou, além do estrito cumprimento do dever, com amor e extremada dedicação.  José Tadeu Vicari honrou e dignificou o Poder Judiciário Catarinense, de forma a elevá-lo a referência de excelência junto às sociedades das diversas comarcas a quem serviu, e finalmente à nossa, onde aportou ao final de sua bela carreira.

     Faz-me bem perceber no Poder Judiciário, pessoas assim, porque através delas sinto que a juventude vocacionada para a justiça ainda tem em quem se espelhar e, por este motivo, o futuro ainda pode ser vigoroso e promissor. Maior realização ao longo de uma vida, do que o dever cumprido e a consciência de ter trabalhado de forma correta, produtiva e justa, que alegria pode contemplar o coração? Em meio a um mar de lama, corrupção em que pululam vagabundos de todas as extirpes, aproveitadores, covardes, ladrões (inclusive do erário), preguiçosos, egoístas, obscuros geradores de prejuízos de toda a ordem, como é confortante encontrar, ao fim de uma longa carreira profissional, alguém orientado por princípios e valores voltados ao serviço dos outros.


Pensamento da semana: Sem OAB e advogados fortes, não há justiça!