Li, absorto, os capitulos “PENSAMENTO COMO ORIGEM DE TUDO”, “CÉREBRO COMO FONTE DE PENSAMENTO E O SISTEMA MENTAL”, “ORGANIZAÇÃO MENTAL E PENSAMENTO CONSCIENTE” e “CONSTRUÇÃO DA CONSCIENCIA” do livro que veio à lume pelas mãos do Magistrado Dr. Renato Mauricio Basso, meu amigo, o qual me foi presenteado em Balneario Camboriu no inicio deste ano de 2026, e cujo título de capa mostra-se como indicativo objetivo de seu impactante conteúdo: “COMO VEJO A EXISTÊNCIA”.
Transcorrido um tempo da leitura de tais capitulos, eis que me vejo repentinamente quedado a esculpir estas linhas que seguem, inspiradas na densidade filosofica do pensamento do autor.
A impressão que me vem à mente, pós leitura e reflexão, é que a minha vida se parece como uma casa antiga. Não uma casa vazia, silenciosa, pronta para receber apenas uma visita, mas uma casa cheia de vozes, corredores e portas entreabertas.
Em cada cômodo mora um pensamento: alguns chegam trazendo flores; outros arrastam móveis, derrubam quadros e insistem em permanecer mesmo depois de esquecidos.
Sou o dono dessa casa, mas nem sempre sou o seu senhor. Muitas vezes, apenas escuto o tumulto e confundo a algazarra com a vida.
O Dr. Renato me conduz a uma pergunta que parece simples, mas abre um abismo: o que existe antes de ser pensado?
Talvez o pensamento seja a primeira pincelada sobre a tela do mundo.
Antes da palavra, há a intenção; antes da construção, o projeto; antes da ação, uma imagem que se forma no interior de alguém.
A antiga afirmação de Descartes — “penso, logo existo” — aparece, então, não apenas como uma certeza filosófica, mas como um espelho: descubro minha existência no instante em que percebo que há, dentro de mim, uma presença capaz de duvidar, imaginar e escolher.
O pensamento é uma espécie de luz. Às vezes ilumina um caminho; às vezes revela apenas a desordem do quarto.
Com ele, criamos explicações para o desconhecido, damos nomes ao que nos assusta e transformamos o estranho em alguma coisa suportável.
O que antes era apenas uma forma distante no horizonte passa a ser barco, ameaça, promessa ou lembrança, conforme o arquivo de imagens que carregamos.
Não vemos o mundo somente com os olhos: vemos também com a memória, com o medo, com o desejo e com todas as ideias que aprenderam a morar em nós.
Por isso, o pensamento pode ser jardim ou cárcere. Victor Frankl, lembrado no texto, mostrou que mesmo quando o corpo é privado de liberdade ainda resta ao ser humano um território interior onde pode buscar sentido.
Não se trata de negar a dor, mas de reconhecer que existe, entre o acontecimento e a resposta, um espaço de consciência. Nesse pequeno intervalo pode nascer uma escolha. É ali que o prisioneiro pode conservar uma última liberdade: a de não entregar completamente sua alma ao sofrimento.
Mas onde vivem esses pensamentos? O texto aponta o cérebro como fonte, fonte e sistema de conexões que recebe o mundo, processa suas impressões, armazena memórias e devolve emoções, decisões e comportamentos.
A imagem é poderosa porque nos faz perceber que não somos feitos de pensamentos isolados, mas de camadas. Há em nós lembranças felizes, traumas, crenças, instintos, hábitos e sonhos, todos ligados por fios invisíveis.
Enquanto dormimos, a mente continua trabalhando no escuro, como uma oficina que reorganiza seus objetos durante a noite. O sonho talvez seja o ruído delicado dessa oficina.
Ainda assim, o cérebro não basta como explicação para o mistério de existir. O texto também chama a consciência de alma, espírito e ligação do indivíduo consigo mesmo e com a natureza.
Entre a linguagem científica e a espiritual, abre-se uma zona de silêncio onde a pergunta permanece mais importante do que a resposta.
Afinal, conhecer os mecanismos da mente não significa necessariamente conhecer aquele que pergunta. Posso saber como uma lembrança se acende e continuar sem saber por que uma determinada lembrança me salva.
A organização mental, no livro do Dr. Renato, é apresentada como o maior empreendimento humano.
Gosto dessa imagem porque ela substitui a fantasia de uma paz pronta pela tarefa paciente de arrumar a casa.
Não se trata de expulsar todos os pensamentos difíceis, como se fosse possível viver sem medo, raiva ou tristeza.
Uma mente organizada não elimina o caos; aprende a dar lugar a cada coisa.
O pensamento consciente é o administrador que examina os visitantes, distingue o que merece permanecer e decide quais vozes não devem comandar a casa.
Para isso, seria necessário um inventário diário. Que pensamento entrou hoje? Quem o trouxe? Ele nasceu de mim ou veio disfarçado na voz de alguém?
Essa pergunta é essencial, porque carregamos frases e preconceitos recebidas na infância como se fossem verdades eternas. “Você é incapaz”, “você é fraco”, “o padrão de relacionamentos humanos é de uma única matiz”, “você não pode divirgir”, “voce não pode falar”, etc.: algumas dessas palavras tranvestidas em preconceitos, julgamentos ou mesmo opiniões formadas antes de se ter conhecimento real ou experiência sobre algo ou alguém, tornam-se máscaras, e depois passamos anos acreditando que o rosto é a máscara.
Ora, construir a consciência é retirar, uma a uma, essas camadas de identificação e perguntar, com coragem, quem somos quando já não obedecemos ao olhar alheio.
Também há, dentro da casa, dois lobos.
Um se alimenta da generosidade, do conhecimento e da serenidade; o outro cresce com a inveja, o ressentimento e o medo. Ambos fazem parte da paisagem humana. A vitória de um não acontece por decreto, mas por alimento.
Cada pensamento cultivado é uma espécie de voto secreto. Ao repetir a crueldade, fortalecemos a crueldade; ao exercitar a lucidez, ampliamos a consciência. Assim, o destino não é uma estrada totalmente pronta: é também o resultado das pequenas escolhas que fazemos diante das vozes que nos habitam.
No fundo, tornar-se consciente é assumir a gerência da própria existência sem acreditar que ser gerente significa controlar tudo.
Há acontecimentos que não escolhemos, dores que não solicitamos e perdas que nos visitam sem pedir licença.
O que podemos organizar é a maneira como os recebemos, interpretamos e transformamos.
A verdadeira autoridade sobre a mente não parece ser uma tirania, mas uma atenção firme e compassiva: saber escutar os pensamentos sem ajoelhar-se diante de todos eles, firmando-se como pessoa autêntica, para ser feliz.
Conclusão...
Os quatro capítulos escrito pelo Dr. Renato e que analisei, compõem uma reflexão sobre a responsabilidade de pensar.
Se o pensamento participa da criação do mundo que habitamos, se o cérebro é sua fonte e morada, se a consciência pode organizar esse fluxo e se sua construção depende do autoconhecimento, então viver não é apenas passar pelos dias: é participar ativamente da formação de si mesmo.
O ser humano é, ao mesmo tempo, a casa, os moradores e aquele que precisa aprender a acender a luz da casa.
Enfim, o texto escrito pelo Magistrado Dr Renato Mauricio Basso é importante porque oferece ao leitor uma linguagem para compreender a própria vida.
Suas imagens — a casa mental, os dois lobos, as máscaras e o pensamento como artista invisível — tornam visível aquilo que normalmente permanece confuso dentro de nós. (Os capitulos possuem estas imagens).
Ao propor a vigilância dos pensamentos e a construção da consciência, o autor presta um serviço valioso: lembra que não somos obrigados a ser para sempre aquilo que disseram que éramos ou o que a sociedade hipócrita desenha e impõe como regra.
Há sempre a possibilidade de reorganizar os cômodos, abrir as janelas e deixar entrar uma luz nova. Esse é o grande mérito destes quatro capitulos de sua obra: transformar a reflexão sobre a mente em convite à responsabilidade, à evolução e ao encontro sincero consigo mesmo.
Adiante, nos encontraremos em outros lindos capitulos escritos pelo autor.
