segunda-feira, 7 de setembro de 2026

“O CHORO, O ESPELHO E O SEGREDO DO AMOR.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Mais uma vez mergulho nas linhas de um capitulo do livro “COMO VEJO A EXISTENCIA”, do Juiz RENATO MAURICIO BASSO, denominado de  “OS PENSAMENTOS LIGADOS AO INSTINTO E AO EGO”. O autor  reflete de forma espetacular, “O CHORO, O ESPELHO E O SEGREDO DO AMOR”, metáfora do presente título, ínspirada no teor de sua abordagem.

 

Principio, pelo choro.

 

 Há um instante, no começo de toda vida, em que o ser humano ainda não sabe dizer “eu”. Sabe apenas respirar, sentir frio, buscar o leite, reclamar do abandono. O primeiro choro não é ainda uma palavra, mas já é uma espécie de argumento: “Estou aqui. Preciso de você. Não me deixe morrer.”

 

Talvez todo ego comece assim, nesse pequeno grito lançado contra a imensidão.

 O capítulo “Os pensamentos ligados ao instinto e ao ego” nos convida a olhar para esse início sem a ingenuidade de quem acredita que o adulto nasce pronto.

 Somos atravessados por pensamentos e tendências que se formam muito cedo, desde a vida intrauterina, e que vão compondo, pouco a pouco, a personalidade.

 

A criança chora e recebe alimento; chora e recebe colo; chora e descobre que o mundo pode ser movido pela insistência. O instinto aprende depressa. O ego, seu intérprete mais astuto, transforma a necessidade em método.

 Mais tarde, o choro pode mudar de roupa. Torna-se vaidade, ciúme, inveja, orgulho, vitimização. O adulto já não esperneia no chão, mas pode exigir que todos se curvem às suas vontades.

 Já não pede o leite, mas quer o dinheiro, o poder, a admiração, o corpo do outro, a exclusividade do afeto. No fundo, permanece a mesma criança assustada, convencida de que perder alguma coisa equivale a perder a própria existência.

 O texto do Dr Renato compara essa lógica à natureza, onde o predador calcula o bote e o mais forte muitas vezes domina o mais fraco. A leoa se agacha, espera, mede o instante. O chopim deposita o ovo no ninho alheio, e seu filhote, maior e mais voraz, ocupa o lugar dos demais.

 Não há, nesses gestos, culpa ou perversidade; há sobrevivência.

 

O problema começa quando o ser humano, dotado de consciência, continua vivendo como se fosse apenas o animal do primeiro impulso. A inteligência que poderia libertá-lo converte-se, então, em serva do instinto: inventa justificativas sofisticadas para desejos antigos.

 Flávio Gikovate, médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor brasileiro, que fui conhecer agora, por conta de sua menção, dedicou grande parte de sua obra ao estudo da sexualidade, do amor e dos relacionamentos conjugais. No capítulo referido, aparece associado à reflexão sobre egoístas, generosos e justos. Sua contribuição ajuda a perceber que o egoísmo não é somente uma falha moral visível; pode ser uma defesa construída na primeira infância, quando o indivíduo aprende a disputar alimento, atenção e segurança.

  O generoso, por sua vez, não é aquele que jamais sentiu medo de perder, mas aquele que conseguiu transformar a própria carência em capacidade de partilha.

 Essa passagem é decisiva.

 Se o ego nasce da fome, não basta condená-lo. É preciso compreendê-lo.

 

O conhecimento de si não serve para absolver nossas violências, mas para descobrir de onde elas vêm antes que se tornem destino. Reconhecer o ciúme no instante em que ele nasce, perceber a inveja antes que ela se vista de opinião, observar a soberba antes que ela se transforme em desprezo: eis uma forma silenciosa de liberdade.

 Nesse ponto, a psicologia de Carl Gustav Jung , também mencionado pelo Dr. Renato, oferece outra janela. A mente, para Jung, não se reduz àquilo que sabemos de nós mesmos. Além da consciência e do inconsciente pessoal, haveria um inconsciente coletivo, constituído por imagens e padrões profundos, os arquétipos, que atravessam a experiência humana.

 A leitura espiritualista presente no capítulo amplia essa perspectiva ao falar de uma “mente astral” e de uma história individual de nascimentos, como se cada existência trouxesse consigo uma memória ou uma tarefa de aprimoramento. Não se trata de uma tese científica comprovada nem da formulação convencional da psicologia junguiana, mas de uma interpretação metafísica: a vida seria uma escola na qual o espírito, preso por algum tempo à matéria, aprende por meio das experiências.

 Jung talvez nos lembrasse que aquilo que recusamos ver em nós tende a aparecer projetado no outro.

 O inimigo que vemos no mundo pode ser a sombra que não suportamos reconhecer no espelho.

 

O ego deseja uma imagem luminosa de si, mas a alma inteira contém também o medo, a agressividade, a dependência e a fome de poder. Tornar-se consciente não significa expulsar a sombra; significa retirar-lhe o comando secreto.

 Sigmund Freud, cujo pensamento conheci há longa data, por outro caminho, colocou a sexualidade no centro da compreensão da vida psíquica.

 Para ele, a sexualidade humana não começa apenas na idade adulta nem se limita ao ato sexual. A libido se manifesta desde a infância, atravessa o corpo, o desejo, as relações e os conflitos, e participa da formação da personalidade.

 

O inconsciente freudiano mostra que nem sempre somos senhores das razões que apresentamos para nossas escolhas. Muitas vezes, uma decisão aparentemente racional carrega desejos, medos e lembranças que não chegaram à luz da consciência.

 Entre Freud, Jung e Gikovate, surgem linguagens diferentes para uma mesma inquietação: por que desejamos o que desejamos? O que, em nós, escolhe antes que possamos explicar?

O capítulo  “OS PENSAMENTOS LIGADOS AO INSTINTO E AO EGO”, responde que o instinto procura sobreviver e que o ego tenta garantir, a qualquer preço, sua porção de alimento, segurança, prestígio e amor.

 

Mas a CONSCIÊNCIA introduz uma possibilidade nova: ELA NÃO ELIMINA A NATUREZA; EDUCA-A. NÃO APAGA A CRIANÇA; ACOLHE-A SEM PERMITIR QUE ELA GOVERNE SOZINHA A CASA INTEIRA.

 

Talvez seja por isso que o amor seja tão difícil. Amar é contrariar a matemática do ego. É descobrir que o outro não nasceu para completar nossa posse, proteger nossas inseguranças ou confirmar nossa superioridade.

 

O sêr humano amado (a), em seus multiplos facetados relacionamentos afetivos, não é um território conquistado, uma vitrine para a vaidade ou um remédio contra o medo de ficar sozinho.

 

Ele é uma presença livre, um mistério diante de outro mistério.

 

QUANDO O EGO QUER CAPTURÁ-LO, O AMOR COMEÇA A MORRER; QUANDO O ESCUTAMOS SEM TRANSFORMÁ-LO EM PROPRIEDADE, ALGO EM NÓS COMEÇA A NASCER.

 A consciência, então, não é uma armadura contra o instinto, mas uma luz lançada sobre seus movimentos.

 Podemos continuar desejando conforto sem fazer do luxo uma identidade.

 

Podemos buscar reconhecimento sem humilhar quem não o recebeu.

 

Podemos sentir ciúme sem convertê-lo em vigilância.

 

Podemos ter medo sem fazer do medo uma lei para os outros.

 

O livre-arbítrio talvez não esteja em escolher os impulsos que surgem, mas em decidir o que faremos com eles.

 

Conclusão:  Esqueça todos os Gikovate, os Freuds e os Jungs. Apenas ame a pessoa e deixe o amor existir; deixe o amor mostrar seus segredos mais profundos, seus mistérios.

 

Então você será capaz de saber o que é o amor. Não porque as teorias sejam inúteis, mas porque nenhuma teoria substitui a experiência viva de respeitar, escutar e reconhecer o outro.

 

O ego pergunta: “O que ganho?” O instinto pergunta: “Como sobrevivo?”

 

O amor, enfim, pergunta: “Como posso estar com você sem deixar de ser eu, e sem impedir que você seja você?” Talvez a resposta não seja uma definição.

 

Talvez seja a própria maneira de caminhar ao lado de alguém, com menos posse, menos medo e mais verdade.

 

 

 

 

 

 


 

 

 

NOTA - Excerto do capitulo:

 

Se as crianças aprendessem como funciona o ego fatalmente seriam adultos conscientes das artimanhas dos pensamentos de inveja, soberba, covardia, submissão, que destroem a paz e causam infelicidade.

 Se pudessem aprender a se conhecer desde cedo, passariam para a fase adulta sem levar consigo a criança presa ao instinto de sobrevivência, que chora, se vitimiza e agride.

 Essa didática não interessa ao sistema e não podemos fazer nada para mudar o comportamento da humanidade, mas podemos mudar a nós mesmos para não sofrermos os efeitos do ego em nossa mente, Conhecer meu ego significa conhecer em parte a mim mesmo, meus demônios e infernos particulares, e posso optar por outra forma de vibração, de energia, com base no entendimento, na aceitação, no perdão e  no amor.”

Foto do autor Dr. Renato Mauricio Basso