terça-feira, 13 de outubro de 2026

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A CONSCIÊNCIA NO COMANDO: Reflexões sobre o livro "COMO VEJO A EXISTÊNCIA" de RENATO MAURICIO BASSO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O livro “COMO VEJO A EXISTÊNCIA”, da lavra do Magistrado Dr. Renato Mauricio Basso, traz à lume uma bússula para compreendermos a nossa inserção na vida e a partir dela, qual o nosso papel como seres que possuem capacidade para pensar e sobreviver materialmente (“bípedes com mãos de pinça” com capacidade para “manipular a matéria para satisfação das nossas necessidades” como motivo para Deus aprisionar o espírito em um animal, segundo o autor). Assim, relendo mais uma vez o capitulo “Os Pensamentos ligados ao institinto e o ego”, busco uma compreensão sobre a minha, a sua e a nossa consciência frente a história que nós mesmos vivenciamos e construímos, nas condições estabelecidas no referido capitulo.

O texto, de tão denso, não pede apenas uma simples leitura e releitura: pede que o leitor se sente diante do texto, como diante de um espelho.

Na realidade, ele oferece uma chave vigorosa para essa experiência ao colocar o instinto e o ego no centro da investigação humana. Para que essa chave não seja confundida como uma simples impressão minha, começo adotando, literalmente, um de seus conceitos fundamentais, como ponto de partida para o texto:

 

“No reino animal o homo sapiens é o único com capacidade mental para discernir e ter consciência de si mesmo, para saber o que é, quem é e o que está fazendo nesta dimensão atômica, mas o homem não tem noção de que é o sistema instintivo que comanda sua trajetória pelo mundo material, em que pese sofrer as consequências das decisões e atitudes que toma sob tal comando.”

 

A força dessa ideia, construída pelo Dr. Renato, está no paradoxo.

Somos capazes de perguntar quem somos, mas frequentemente agimos como se não precisássemos responder. A consciência abre a porta da liberdade; o instinto, entretanto, continua preenchendo os cômodos com urgências antigas. O drama humano não nasce de possuir instintos, e sim de obedecer-lhes sem reconhecê-los. Quando o impulso permanece invisível, ele se disfarça de opinião, destino ou personalidade.

Prossegue o Dr. Renato, a respeito do ego, conceituando-o como caracterizador de personalidade:

 

“O ego como caracterizador de personalidade se forma com mais robustez até o quarto ano de vida da criança e é causador de muitos dos males que ocorrem na humanidade, pensamentos e problemas que dificultam o relacionamento do indivíduo consigo mesmo e com o mundo.”

 

Adoto esse conceito não para transformar o ego em um vilão absoluto, mas para compreendê-lo como uma arquitetura de defesa que pode envelhecer sem amadurecer. Ele começa tentando proteger a criança e, se não for examinado, continua exigindo proteção quando o adulto já tem outros recursos. A antiga necessidade de atenção reaparece como vaidade; o medo de perder o acolhimento reaparece como ciúme; o desejo de ter um lugar reaparece como disputa por superioridade. O passado não precisa ser uma prisão, mas costuma fabricar as grades com que interpretamos o presente.

O autor busca mostrar com objetividade a clara  relação entre instinto e ego:

 

“O ego é o agente manipulador do instinto que passa a comandar o próprio sistema mental, sufocando a consciência e os pensamentos.”

 

Aqui está o núcleo daquilo que precisamos compreender: o ego não é apenas um conjunto de desejos; é um intérprete interessado.

Ele pega a fome de segurança e a traduz em acumulação.Pega a necessidade de reconhecimento e a traduz em exibição.Pega a dor da rejeição e a traduz em agressividade ou vitimização.

Assim, o instinto oferece a energia, mas o ego inventa a narrativa que torna essa energia aparentemente nobre. A pessoa não diz “quero dominar”; diz “estou apenas defendendo meu valor”. Não diz “tenho medo de desaparecer”; diz “preciso ser admirada”.  Prossegue o autor:

 

“No contexto do sistema instintivo, portanto, é a necessidade de sobrevivência que comanda os pensamentos e atitudes do ser humano.”

 

Esse fundamento individual também explica a vida coletiva. Uma sociedade pode estimular a sensação de insuficiência para vender alívio, prestígio e pertencimento. O indivíduo, desejando sobreviver não apenas fisicamente, mas também no território simbólico da aprovação, passa a comprar sinais de importância. O objeto deixa de ser objeto e vira argumento: “sou alguém porque possuo isto”. O ego, alimentado por comparações, transforma a convivência numa competição silenciosa, na qual até a felicidade precisa parecer maior que a do vizinho.

É nesse ponto que precisamos ampliar a nossa reflexão:  Se o ego domina por meio do que nos faz desejar, ele também se fortalece através do olhar que permanece preso ao exterior.

Ver não é necessariamente compreender.

Podemos enxergar posses, aparências e posições sociais e, ainda assim, permanecer cegos ao mecanismo que nos faz cobiçá-las. A interioridade começa quando a atenção deixa de perguntar apenas “o que estou vendo?” e passa a perguntar “quem, em mim, está vendo e com que interesse?” (Bingo).

Essa pergunta inaugura uma espécie de segunda visão. Ela não rejeita os sentidos nem abandona a matéria; apenas devolve cada coisa à sua proporção. O corpo continua precisando de alimento, abrigo e cuidado. A vida social continua exigindo trabalho, regras e cooperação. Mas a consciência já não confunde necessidade com excesso, nem prazer com valor. O mundo externo deixa de ser um tribunal permanente. A pessoa pode participar dele sem entregar-lhe a definição de si mesma.

PROGNÓSTICO

E, de forma magistral, o autor aponta para uma concreta possibilidade de transformação:

 

“Conhecer meu ego significa conhecer em parte a mim mesmo, meus demônios e infernos particulares, e posso optar por outra forma de vibração, de energia, com base no entendimento, na aceitação, no perdão e no amor.”

 

Esse é o ponto em que a análise deixa de ser diagnóstico e se torna prognóstico e prática de liberdade.

Conhecer o ego não significa destruí-lo, porque uma identidade funcional é necessária para agir, escolher e responder pelos próprios atos. Significa retirar dele o monopólio da interpretação. O ego pode cuidar dos limites, mas não deve decidir sozinho o que merece amor. Pode alertar para o perigo, mas não deve transformar toda diferença em ameaça. Pode desejar reconhecimento, mas precisa aprender que dignidade não depende de aplauso.

A consciência, então, aparece como uma testemunha ativa. Ela observa o impulso antes da reação, identifica a ferida antes da acusação e percebe a máscara antes de tomá-la por rosto.

Essa testemunha não humilha o instinto: educa-o. Não combate o ego com outro ego mais orgulhoso: limita-o com lucidez. E não promete uma pureza impossível; oferece algo mais realista e mais profundo, a possibilidade de escolher melhor mesmo carregando contradições.

Talvez amadurecer seja exatamente mudar o centro de comando.

O instinto continuará lembrando que somos matéria; o ego continuará tentando transformar lembranças em domínio; o mundo continuará exibindo vitrines para capturar nossa atenção. Porém, entre aquilo que surge e aquilo que fazemos, pode nascer uma pausa consciente. Nessa pausa, a pessoa deixa de ser apenas efeito de sua história e começa a tornar-se autora de sua resposta. Enfim, o texto nos ensina a investigar o animal instintivo que habita o humano, e, neste ponto, o questiona o autor com espanto, para responder na sequência:

 

“Que motivos tem o Criador para aprisionar o espírito por um lapso de tempo em um animal neste planeta? Penso que fomos escolhidos dentre outros animais para hospedar uma consciência, porque, bípedes com mãos de pinça, podemos criar, manipular a matéria para satisfação das nossas necessidades e desejos, fazer desenhos rupestres e escrever nossas experiências, nossa história, mantendo assim a sociedade em evolução, porque evoluir é a nossa sina”

 

 

Essa pergunta e resposta, exige fechar, por instantes, os olhos da distração para acrescermos, que bipedes que somos, precisamos reconhecer o impulso, compreender o ego, voltar-se para dentro e devolver ao mundo uma atitude menos automática de quem apenas manipula a matéria porque adquirimos poder de pinça.

Somos livres, não porque não temos instintos ou porque não temos capacidade para manipular a matéria para sobreviver e evoluir fisicamente com autonomia, enquanto ser humano e sociedade.

Somos livres porque, evoluindo espiritual e mentalmente, conseguimos ver com clareza os instintos, sem permitir que eles vejam e ajam exclusiva e inteiramente por nós.


Frase do Dr. Renato: "PONTO DE VISTA: Cada um com o seu. Eu tenho os meus sobre muita coisa, até quanto à existência. Tento me posicionar na trama social como posso e como entendo melhor."