quarta-feira, 9 de setembro de 2026
JOÃO GIRARDI: O PREFEITO QUE JOGOU ATÉ O ÚLTIMO MINUTO
Uma crônica sobre compromisso público, lealdade e cidadania.
Há prefeitos que governam até o dia da eleição. Há outros que governam até o último dia do mandato. E há aqueles, raros, que governam até o último minuto — não por cálculo, mas por convicção. João Girardi pertence a esta última categoria. Em Concórdia, sua passagem pela Prefeitura deixou mais do que obras, números e inaugurações: deixou uma maneira de compreender o serviço público.
No último dia de seu governo, quando seria compreensível diminuir o ritmo, recolher os papéis e aguardar a transição, João Girardi fez o contrário. Ainda havia obras em andamento, recursos empenhados, projetos por concluir e dados a conferir. E ele estava ali, acompanhando tudo. A eleição havia terminado, seu grupo político não havia vencido a sucessão, mas o compromisso com a cidade não terminava nas urnas. Para ele, a responsabilidade recebida do povo não tinha prazo eleitoral; tinha a duração inteira do mandato.
A frase que ecoa da gravação de seu ultimo discurso no PARQUE DE EXPOSIÇÕES no ultimo dia do ano de 2016, é uma síntese de sua postura: era preciso jogar até os 90 minutos; e, se houvesse prorrogação, também estar preparado.
A metáfora esportiva não era apenas retórica. Em João Girardi, ela revelava uma ética: quem assume uma tarefa pública não pode abandoná-la quando o resultado político deixa de ser favorável. O dever continua sendo dever, a cidade continua sendo cidade e cada cidadão continua merecendo respeito, cuidado e resposta.
Naquela fala de despedida, aparecem as marcas de uma administração que não se limitava ao centro da cidade. Havia escolas e CEMEIs em construção, programas de saúde prontos para atender comunidades, pavimentações em distritos e bairros, investimentos na UPA e recursos reservados para o Centro de Especialidades.
O esporte encontrava estrutura no Centro de Eventos e no parque; os agricultores tinham espaço para suas feiras; a educação recebia parcela expressiva dos recursos; a saúde, igualmente, era tratada como prioridade. Não era a obra isolada que definia o legado, mas o conjunto: a visão de que desenvolvimento é oferecer oportunidades, cuidado e dignidade em todos os cantos do município.
Mas a maior obra, como o próprio prefeito reconheceu, não se mede em metros quadrados. É a participação da sociedade. Uma cidade não se transforma apenas pela ação do governo, nem uma gestão pública se sustenta sem a confiança e a colaboração das pessoas. Ao reconhecer esse papel, João Girardi demonstrou outra qualidade essencial: a humildade de saber que o poder público deve servir à comunidade, e não substituir a comunidade.
É por isso que tantos o consideram o melhor prefeito da história de Concórdia. Não somente pelo trabalhador incansável, pelo administrador competente ou pelo homem honesto, mas pelo modo como acolhia a todos.
João Girardi não fazia da cor partidária uma fronteira para a cidadania. Não perguntava primeiro de que lado estava a pessoa; perguntava de que maneira o município poderia cumprir sua obrigação. Governava para os que o apoiavam e para os que discordavam dele, porque compreendia que o prefeito não é dono da cidade: é servidor de todos os seus moradores.
Essa mesma compreensão explica sua distância das perseguições. A autoridade, para ser legítima, não precisa humilhar, retaliar ou criar inimigos.
João Girardi mostrou que é possível administrar com firmeza sem transformar divergências em vendetas. E mostrou, sobretudo, que a lealdade não é uma palavra conveniente para discursos: é uma prática diária. Ele não abandonou companheiros, amigos e pessoas que trabalharam ao seu lado. Manteve compromissos, honrou alianças e permaneceu fiel àqueles que compartilharam a caminhada — inclusive quando seria mais fácil afastar-se deles depois da derrota eleitoral.
A observação feita naquela manhã, no último dia de seu mandado, resume uma verdade da vida pública: quando se ganha, é fácil estar junto; difícil é permanecer junto depois que se perde. João Girardi permaneceu. E, mais do que permanecer, continuou trabalhando. Essa é a diferença entre quem trata a política como carreira pessoal e quem a entende como missão temporária de serviço.
A eleição escolhe governos; não autoriza o abandono do povo. O mandato termina, mas a responsabilidade moral de entregar a cidade melhor do que foi recebida permanece até o último instante.
Concórdia teve em João Girardi um exemplo que ultrapassa os limites de seu tempo e de seu município. Seu legado é uma lição para o Brasil: gestão pública se faz com trabalho, competência, honestidade, planejamento, respeito às diferenças e fidelidade à palavra empenhada.
Faz-se sem perseguição, sem exclusão e sem confundir adversário com inimigo. Faz-se lembrando que cada obra atende pessoas concretas e que cada decisão administrativa pode melhorar — ou dificultar — a vida de uma família.
No fim, a imagem que fica é a de um prefeito que não largou o jogo antes do apito final.
Mesmo depois do resultado das urnas, continuou olhando para a frente, cuidando das obras, conferindo os dados e cumprindo o juramento. Talvez seja essa a medida mais verdadeira de um homem público: não o que faz quando todos o aplaudem, mas o que faz quando já não precisa provar nada a ninguém.
João Girardi provou, então, que fazia a diferença. E, em Concórdia, sua forma de governar permanece como memória, referência e esperança de que a cidadania pode estar acima da disputa — até o último minuto.
Cronica inspirada no pronunciamento registrado no último dia do governo municipal.
